Diocese de Afogados da Ingazeira debate desmatamento e exploração de recursos naturais no Pajeú

Seminário, com o título "A Caatinga, Guardiã da Água", ocorreu dentro da 13ª Semeia (Semana do Meio Ambiente).

Diocese de Salgueiro inicia preparativos para Assembleia Diocesana de Pastoral

Preparativos têm início com Assembleia na Área Pastoral São Marcos.

Na solenidade de Corpus Christi, dom Fernando Saburido convida fiéis a serem “Eucaristia” para o próximo

Celebração foi realizada na quinta-feira, 04, na Igreja do Santíssimo Salvador do Mundo – Sé de Olinda/PE.

Dom Antônio Muniz, arcebispo de Maceió, recebe alta médica

Dom Antônio foi internado para cirurgia cardíaca realizada dia 20 de maio.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Artigo: O Pão Partilhado

Jesus se apresenta como o Pão da Vida, que multiplica os pães, saciando a fome da multidão (cf. Jo 6,1-15). O pão recorda que não possuímos a vida de modo absoluto. Devemos sempre renová-la e lutar por ela. Precisamos, sim, do pão de cada dia. E, não podemos, sozinhos, prover-nos de pão: é Deus quem faz a chuva cair, quem torna o solo fecundo, quem dá vigor à semente. Assim, a vida humana está continuamente na dependência do Senhor. Portanto, todos necessitamos do pão nosso de cada dia – e este é dom de Deus. 

Ao multiplicar os pães, Jesus apresenta-se como aquele que dá vida, que nos sacia com o sentido da existência. Pois, não há vida de verdade para quem vive sem saber o sentido do viver. Ele, num lugar deserto, manda o povo sentar-se sobre a relva, toma uns pães e uns peixes, dá graças, parte, e os distribui multiplicando-os. Todos comeram e ficaram saciados. Só que o povo, após o milagre, foi à procura do Senhor e ele repreendeu duramente a multidão: "Vós me procurais não porque vistes os sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados!" Que sinal o povo deveria ter visto? Recordemos o trecho: "Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo" (Jo 6,14). Veja: o povo até que começou a discernir o sentido do milagre de Jesus; mas, logo depois, fascinado simplesmente pelo pão material, pelas necessidades de cada dia, esquece o sinal. Que sinal? Que Jesus é o Novo Moisés, aquele profeta que o próprio Moisés havia anunciado em Dt 11,18: "O Senhor Deus suscitará no vosso meio um profeta como eu". Como Moisés, Jesus reúne o povo num lugar deserto, como Moisés, sacia o povo com o pão. Mas, Jesus é mais que Moisés: ele é o Deus-Pastor que faz o rebanho repousar em verdes pastagens e lhe prepara uma mesa. Era isso que o povo deveria ter compreendido; foi isso que não compreendeu. 

Hoje, compreendemos os sinais de Cristo em nossa vida? Os gestos de Jesus na multiplicação dos pães é também prenúncio da Eucaristia. Os quatro gestos por ele realizados – tomou o pão, deu graças, partiu e deu – são os gestos da Última Ceia e de todas as ceias que celebram o sacrifício eucarístico do Senhor. Na Missa, tornam-se presentes os gestos do Senhor, dado em sacrifício e recebido em comunhão. 

Deus conta, hoje, com o pouco que podemos oferecer para multiplicar o pão, assim como Jesus contou com a colaboração das pessoas para realizar tantos outros milagres, “sinais” da chegada do Reino.  Não se oferece apenas o que sobra ou que tem pouco valor, mas o que se tem e que se considera importante. Os bens partilhados são dons de Deus. 

Infelizmente, há muita indiferença perante o drama da miséria e da fome no mundo. É preciso partilhar generosamente e acabar com a corrupção. Coloquemos nossa fé em Jesus Cristo, o verdadeiro Pão, que vem saciar a nossa fome de vida e que, através de nós, apesar da nossa fragilidade e pequenez, quer saciar a fome sofrida por tanta gente: fome do pão cotidiano nas casas, fome do pão da Palavra e da Eucaristia. 

Portanto, não deve faltar a fé em Deus, que sacia a nossa fome, assim como, a disposição em partilhar os nossos bens com os necessitados. A celebração eucarística, no qual partilhamos o Pão da Vida, seja fonte e sustento da partilha do pão cotidiano. É partilhando o pão da vida que podemos enfrentar com fraternidade as necessidades deste mundo.

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Artigo: A pastoral de Jesus

         
Tudo quanto temos para gritar ao mundo é Jesus, o Bom Pastor! Ele é a Palavra viva do Pai, o Salvador e a Salvação. É a ele que a Igreja dirige seu olhar e seu coração, para contemplá-lo, escutá-lo e nele beber das fontes da vida e da paz.

Em Israel, pastores do povo eram seus dirigentes: reis, sacerdotes, escribas, profetas. Infelizmente, de modo frequente, esses eram pastores maus e infiéis (cf. Jr 23,1-6), pois não faziam o que era de se esperar de quem apascenta: não amavam o rebanho, dele não cuidavam, com ele não se preocupavam. Faziam como a maioria dos políticos brasileiros de agora, sem terem outra preocupação que o próprio bem-estar, poder e prestígio. Assim dizia Santo Agostinho:“procuram somente o leite e a lã das ovelhas, sem com elas se preocuparem”.

Os pastores do povo de Deus, que é a Igreja, os ministros de Cristo,  também o Senhor repreende e a eles exorta a que se convertam e sejam pastores de verdade. Mas, quem é pastor de verdade na Igreja? Quem se deixa plasmar pelo verdadeiro Pastor, pelo único Pastor, aquele que é a própria justiça, a própria santidade de Deus: "Este é o nome com que o chamarão: 'Senhor, nossa Justiça'", Jesus Cristo (cf. Jr 23,6). 

Jesus: "Ao desembarcar, viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas" (cf. Mc 6,34).Que cena sublime! Jesus cansado, pensando em algo tão legítimo: um dia de descanso em companhia dos Doze. E quando chega ao local escolhido para o merecido repouso, lá estava a multidão cansada, sedenta de luz, de vida, de verdes pastagens, desorientada, como ovelhas sem pastor. E Jesus, Bom Pastor, esquece de si mesmo, deixa de lado seu cansaço e, cheio de compaixão, vai cuidar das ovelhas. Por isso mesmo, ele é o Pastor por excelência. Ele ama o rebanho, preocupa-se com ele, dele se compadece e por ele vai derramando, diariamente, a própria vida. Nunca se viu Jesus poupar-se, nunca se testemunhou Jesus fazendo um milagre em benefício próprio, nunca se apanhou o Senhor buscando algum favor para si. Toda a sua vida foi para o rebanho, por amor ao Pai, vida doada, entregue de modo total até a morte e morte de cruz. Tem razão São Paulo: "Agora, em Jesus Cristo, vós que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos, pelo sangue de Cristo. Ele, de fato, é a nossa paz!"(Ef 2,13s). O Bom Pastor, entregando a vida pela humanidade, nos atraiu, abrindo um novo caminho, suscitando uma nova esperança, reunindo-os todos no seu aconchego, no seu coração de Pastor, dando-nos a paz e fazendo de nós a sua Igreja. No mundo de hoje, marcado por tantas divisões e violências, necessitamos anunciar que Cristo “é a nossa paz” (Ef 2,14), promovendo a reconciliação e a unidade. “Somos da paz” é o lema deste Ano da Paz, vivido pela Igreja Católica no Brasil, nos motivando a promover a paz hoje.

O exemplo de Cristo é motivo de questionamento e chamado à conversão. Sejamos como ele, sejamos presença dele no mundo, tendo seus sentimentos, suas atitudes, participando de sua entrega total. Confiemos totalmente no Senhor, ainda mesmo que passe pelo vale tenebroso, porque sabe que o pastor é fiel (cf. Sl 22). Sigamo-lo, nele coloquemos a nossa existência. A pastoral de Jesus é cuidar das multidões e dos futuros pastores (cf. Mc 6,30-34). Ninguém é na Igreja somente pastor, mas também ovelha, e ninguém é somente ovelha, mas também pastor, isto é, responsável pelos irmãos. Sejamos, hoje, solidários e acolhedores.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Artigo: A Missão Evangelizadora

Deus chama os profetas e apóstolos e os envia em missão. Ele também nos chama e nos envia. A iniciativa é do Senhor e não depende de critérios nossos. É dom gratuito do Senhor. O chamado e o envio dos apóstolos acontecem por iniciativa de Jesus Cristo.  Deus chama, envia e sustenta na missão. Necessita, simplesmente, da resposta de cada um na fé e na disponibilidade em caminhar e servir.

Amós (Am 7,12-15), pastor e agricultor foi chamado e enviado por Deus em missão como profeta. Este surpreende porque age livremente no Espírito do Senhor. O Senhor o tirou de trás do rebanho, tirou-o da sua vida, e o mandou ao povo de Israel. Os Apóstolos foram chamados e enviados por Jesus em missão (Mc 6,7-13): sem levar nada, confiando somente em Deus, correndo o risco de serem incompreendidos e rejeitados, eles deveriam ir, anunciando o Reino de Deus, que exige mudança de vida, conversão de pensamento, atitudes e modo de agir.

Deus continua falando, dirigindo seu chamado ao mundo e a cada pessoa. Se escutarmos com atitude de fé a Palavra do Senhor, se na oração nos abrirmos aos seus apelos, se estivermos atentos ao que ele nos fala no nosso coração, descobriremos que o Senhor também nos envia! Todo cristão, pelo Batismo e pela Crisma, participa da missão de Jesus, a missão de anunciar o Reino, que Ele nos veio mostrar! Não podemos nos calar nem sufocar a Palavra do Senhor, da qual o mundo tanto necessita.

Quantas oportunidades temos de falar, de anunciar e de testemunhar o amor e apresença de Jesus em nosso meio. Jamais podemos omiti-lo. Não podemos ser cristãos cansados, omissos, acomodados!Nós somos chamados e enviados pelo Senhor! Aqui e agora somos as testemunhas do Senhor nosso! Um dia, certamente seremos cobrados por isso; o Senhor nos pedirá contas!

Somos enviados por Jesus ao mundo para testemunhar o plano, o sonho de amor para toda a humanidade, que o Pai desde toda eternidade acalentou e realizou em Cristo Jesus, tornando-o presente para nós pelo ministério da Igreja! Estejamos certos de uma coisa: somos parte desse sonho, somos cooperadores desse sonho! Que nossa vida, nossas palavras, nosso compromisso, testemunhem e tornem presente esse sonho de Deus!

Olhemos a cruz, consequência do nosso pecado, e tomemos consciência do quanto somos queridos, preciosos, amados por Deus e chamados a amá-lo e participar da Sua vida! É este o chamado do Senhor! Não sejamos surdos! Um cristão e uma comunidade ‘surdos’ à voz do Espírito do Senhor, que impulsiona a levar o Evangelho a todos, torna-se um cristão e uma comunidade de ‘mudos’ que não falam e não evangelizam. Coloquemos sob a ação do Espírito Santo a nossa vida de cristãos e a missão, que todos recebemos em virtude do Batismo e da Crisma, significa encontrar a coragem profética e apostólica necessária para superar as acomodações mundanas. Sejamos sementes do Reino de Deus no mundo. É necessário contribuir para a construção do mundo novo, querido por Deus, no qual “a verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão” (Sl 85,11).  Que o Senhor nos ajude a vivermos sempre como verdadeiros cristãos,chamados e enviados em missão para anunciar e testemunhar o Evangelho da alegria.

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Artigo: A justiça dos homens e a fé nas pessoas

Brasão_Dom_Saburido
(A respeito da PEC 171 que trata da redução da maioridade penal)
Dom Fernando Saburido,Arcebispo de Olinda e Recife
A Comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou no último dia 17 de junho a medida para reduzir a idade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. De nada adiantou a recente nota pública da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmando que reduzir a maioridade penal é uma medida imoral, além de inócua. Também a OAB e outras entidades se pronunciaram na mesma linha da CNBB. Foi ainda inútil argumentar que tal decisão viola a Constituição Brasileira de 1988 e, segundo a UNICEF, organismo da ONU, desrespeita a Convenção Internacional das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, que o Brasil assinou em 1989.
Infelizmente, no nosso país, percebe-se que no lugar de argumentos sólidos, as pessoas se deixam envolver pelo clima emocional criado por alguns meios de comunicação de massa e por preconceitos de classe que acabam sempre penalizando a pobreza e condenando a maioria de nossos jovens à marginalidade.  Afinal, como afirmou a nota da CNBB: “Para a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Ideli Salvatti – antes de discutir a violência cometida pelos adolescentes, precisamos tomar providências efetivas em relação à violência cometida contra os jovens. Hoje, os casos em que os adolescentes cometem atos infracionais que provocam a morte de alguém representam o percentual de apenas 0,1%, enquanto os adolescentes se constituem como 36% das vítimas de homicídio”… “É, portanto, imoral querer induzir a sociedade a olhar para o adolescente como se fosse o principal responsável pela onda de violência no país”.
Todos sabem da situação do sistema prisional brasileiro. Prisões superlotadas, condições carcerárias desumanas, insegurança total de vida e da integridade dos prisioneiros. Conforme os agentes da Comissão Nacional da Pastoral Carcerária, os presídios e cadeias servem como instrumentos de punição e vingança da sociedade e não, como deveriam ser, centros de reeducação das pessoas e reintegração social. Por isso, acabam se tornando mais escolas do crime do que meios de reabilitação. Uma pesquisa feita em São Paulo revela que 60% das pessoas que estiveram em presídios brasileiros acabam voltando. Desses, quase todos são pobres e de periferia e a maioria negros.
Muitos têm escrito sobre as falhas jurídicas e sociológicas que um tipo de iniciativa como a redução da maioridade penal acarreta. Como ministro da Igreja, prefiro apontar a aberração que é o fato de que muitos parlamentares que levantam esse tipo de propostas se dizem cristãos.  É um insulto ao Evangelho o fato de que, no Congresso atual, os que se dizem da “bancada da Bíblia” se unam aos da bancada da Bala (defensores da violência como solução dos problemas sociais) e do Boi (antipáticos à reforma agrária e indiferentes aos pequenos lavradores e índios). Todos esses, em geral, a serviço dos seus interesses ideológicos ou partidários, não ligam minimamente a fé com a ética. Ainda não entenderam que na Bíblia, o nome de Deus é “O Senhor, nossa justiça” (Jr 23, 6). Essa justiça divina não é como a dos homens – simplesmente punitiva e até vingativa. Ela é como defende a Pastoral Carcerária, uma justiça restaurativa. Torna o presidiário responsável por sanar de todos os modos possíveis os prejuízos causados por seu crime, mas de modo que o objetivo seja a redenção da pessoa e a libertação tanto dos culpados, como das vítimas. O anúncio do reino de Deus propõe ao pecador a conversão e inclui o perdão, baseado na justiça restaurativa, capaz de refazer laços sociais solidários. Evangélicos ou católicos, que apresentam de Deus a imagem de um carrasco cruel e vingativo não merecem o nome de cristãos. A mensagem fundamental de Jesus é o amor e a não violência. Sua proposta é a solidariedade como principio de vida, sobretudo com os mais pequeninos e frágeis da sociedade. Por isso, como declara a citada nota da CNBB: “A Igreja no Brasil continua acreditando na capacidade de regeneração do adolescente, quando favorecido em seus direitos básicos e pelas oportunidades de formação integral nos valores que dignificam o ser humano”.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Artigo: O Testemunho dos Apóstolos Pedro e Paulo

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

Celebramos a festa dos Apóstolos Pedro e Paulo (28.06.2015) que muito tem marcado a Igreja, especialmente pelo testemunho de fidelidade a Cristo. Mortos na perseguição de Nero pelo ano 64. Através destes dois apóstolos a Igreja celebra sua apostolicidade: Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. 

A Igreja não pode ser fundada por ninguém, a não ser pelo próprio Senhor, que a estabeleceu sobre o testemunho daqueles Doze primeiros que ele mesmo escolheu. Seu alicerce, sua origem, seu fundamento são o ministério e a pregação apostólicas que, na força do Espírito Santo, deverão perdurar até o fim dos tempos, graças à sucessão apostólica dos Bispos católicos, transmitida na Consagração episcopal. Dizer que nossa fé é apostólica significa crer firmemente que a fé não pode ser inventada nem tampouco deixada às modas de cada época. Não somos nós, mas o Cristo no Espírito Santo, quem pastoreia e santifica a Igreja.

Apóstolo não é somente aquele que anuncia Jesus, mas, sobretudo, aquele que, escolhido pelo Senhor, com ele conviveu, nele viveu e, por ele, entregou sua vida. Os apóstolos testemunharam Jesus não somente com a palavra, mas também com o modo de viver e com a própria morte. Por isso mesmo, seu martírio é uma festa para a Igreja, pois é o selo de tudo quanto anunciaram. O próprio São Paulo reconhecia: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor. Trazemos, porém, este tesouro em vasos de argila, para que esse incomparável poder seja de Deus e não nosso” (2Cor 4,5.7).

Jesus fundamenta sua Igreja sobre a fé de Pedro. Mesmo a ação missionária de Paulo submete-se à autoridade de Pedro. Em Pedro e Paulo reflete-se a Igreja de Cristo. Uma Igreja que imita a Cristo (At 12,1-11). Uma Igreja que dá testemunho de Cristo.

Iluminados pela Palavra de Deus, somos motivados a imitar os exemplos que Pedro e Paulo nos deixaram.  Eles não foram cristãos apenas por palavras, mas pelo testemunho corajoso até à morte.
Quando Pedro se encontrava na prisão, por anunciar o Evangelho,  não lhe faltaram a oração da Igreja e o auxílio do Senhor naquela situação tão difícil (cf. At 12,5). A solidariedade por meio da oração é uma atitude a ser sempre cultivada em nossas comunidades. Não pode faltar apoio fraterno aos que sofrem perseguições por causa da fé em Cristo e da participação na Igreja. Paulo, também perseguido e preso por causa da pregação do Evangelho, ressalta a sua serenidade e confiança em Deus: “o Senhor esteve a meu lado e me deu forças” (2Tm 4,17).  

O testemunho dos Apóstolos continua a ecoar na Igreja, nos estimulando a repetir, com os lábios, o coração e a vida, a profissão de fé de Pedro diante de Jesus: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). É feliz quem professa esta mesma fé, pela graça de Deus, especialmente nos momentos mais difíceis da vida. Fazemos isso, em profunda comunhão com o sucessor do Apóstolo Pedro, comemorando nesta festa o Dia do Papa. A palavra de Jesus dirigida a Pedro fundamenta a missão exercida na Igreja, por ele e seus sucessores: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16,19).

Rezemos pelo Papa Francisco, seguindo o exemplo da Igreja nascente que estava unida ao apóstolo Pedro em oração. O Senhor, nosso Deus, que o escolheu para o Episcopado na Igreja de Roma, o conserve são e salvo à frente da sua Igreja confirmando os irmãos e irmãs.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Artigo: A casa comum

No último dia 18 de junho, quinta-feira, foi publicada uma nova encíclica do Papa Francisco com o título “Laudato si (=Louvado seja), sobre o cuidado da nossa casa comum”, palavras contidas no Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis. Nas 192 páginas, divididas em seis capítulos, são abordadas as questões do cuidado com a criação, a ecologia humana e a proteção do meio ambiente. É um forte convite à nossa responsabilidade com a natureza humana.

Pergunta: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” "Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. E isso conduz a interrogar-se sobre o sentido da existência e sobre os valores que estão na base da vida social: Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Se não pulsa nelas esta pergunta de fundo. Não creio que as nossas preocupações ecológicas possam surtir efeitos importantes".

O texto apresenta eixos temáticos sobre o que está a acontecer à nossa casa - as mudanças climáticas - «a falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes”,«o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial”, a preservação da biodiversidade e a dívida ecológica, existem «responsabilidades diversificadas». O Papa Francisco se mostra profundamente impressionado com a «fraqueza das reações» diante dos dramas de tantas pessoas e populações. Embora não faltem exemplos positivos, falta uma cultura adequada.

Em seguida, o Papa Francisco relê as narrações da Bíblia - «o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo”. A narração da criação é central para refletir sobre a relação entre o ser humano e as outras criaturas e sobre como o pecado rompe o equilíbrio de toda a criação no seu conjunto. 

O ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição autoreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder. O coração da Encíclica é a ecologia integral como novo paradigma de justiça; uma ecologia «que integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda». Esta ecologia integral «é inseparável da noção de bem comum». Um melhoramento integral na qualidade da vida humana: espaços públicos, moradias, transportes e outros.

Para o Papa Francisco é imprescindível que a construção de caminhos concretos não seja enfrentada de modo ideológico, superficial ou reducionista. Por isso, é indispensável o diálogo. As raízes da crise cultural agem em profundidade e não é fácil reformular hábitos e comportamentos. A educação e a formação continuam sendo desafios centrais:«toda mudança tem necessidade de motivações e dum caminho educativo»; estão envolvidos todos os ambientes educacionais, por primeiro « a escola, a família, os meios de comunicação, a catequese». «Uma ecologia integral é feita também de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo». 

São Francisco de Assis expressou bem no seu Cântico: “louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão sol, pela mãe terra, pela irmã água... e por todo ser!” No site: www.news.va, temos o texto completo da Encíclica sobre o cuidado da casa comum. Convido a todos(as) a acolherem e lerem a encíclica do nosso Papa Francisco com profundo interesse, alegria e esperança no coração.

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena– Bispo de Guarabira(PB)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Artigo: Por um futuro sensato


Prezados leitores e leitoras,

Ultimamente, nos deparamos com certa inquietação por conta de pessoas que insistem na ideia sobre a ‘Identidade de Gênero’ ou a igualmente chamada ‘Ideologia de Gênero’. Esta teoria insiste na “distorção completa do conceito de homem e mulher, ao propor que o sexo biológico seja um dado do qual deveríamos libertar-nos cabendo a cada indivíduo decidir o tipo de gênero a que pertenceria nas diversas situações e fases da sua vida”. (Nota Circular dos Bispos do Regional Nordeste 3 sobre a questão da Ideologia de Gênero).

No meu modo de pensar, forçar a implementação da ‘ideologia de gênero’ chega até mesmo ser um constrangimento à família e à toda sociedade, isso sem me deter ao contristar com o querido por Deus quando da obra da criação. Constranger é incomodar, forçar; é, ainda, coagir e compelir. Entendam, baseio-me na nota dos Bispos do Regional Nordeste 3, que elucida: “No mês de junho todos os 5.570 municípios brasileiros deverão aprovar seus Planos Municipais de Educação (PME) de acordo com o Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024, instituído pela Lei 13.005/2014. Para relembrar, trazendo à lume os fatos, o PNE foi fruto de um intenso debate democrático com participação dos cidadãos brasileiros e de muitas pessoas com interesse pela família. Nele, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal rejeitaram a menção à ‘igualdade de gênero’ pela relação direta que a expressão tem com a chamada ‘ideologia de gênero’”. Se foi rejeitado na Câmara Federal e no Senado, por que, disfarçada e sutilmente, reaparece agora, colocado no processo para aprovação dos Planos Municipais de Educação que orientarão as secretarias de Educação e as diretorias das escolas municipais nos próximos dez anos? Creio que tudo isto está sendo veladamente apresentado – como que na surdina – porque pouco acompanhamos as discussões e atividades dos legislativos municipais, já que as votações naquelas casas - que seriam populares - são pouco acompanhadas pelos cidadãos, tendo em vista também o pouco, ou até mesmo o total desinteresse das grandes mídias de comunicação, grande formadoras da opinião pública. Caso os Planos Municipais de Educação contenham os ditames da ‘ideologia de gênero’, comprometeremos a formação de toda uma geração, levando em conta o seu período de vigência: a duração de uma década. Se a aprovação acontecer, os efeitos e consequências serão infindamente trágicos às consciências e aos valores dos indivíduos, da família e da sociedade como um todo, independentemente do credo que professam.

Tal como afirmam os bispos, isso é um desrespeito. E digo mais: como tudo está sendo conjecturado, negociado e feito pelos pregoeiros da perversão dos costumes, isto é uma violência, pois os que estão por trás dessa implantação da ‘ideologia de gênero’ não se conformam com as reiteradas derrotas na Câmara e no Senado, no intuito pertinaz de ver concretizado em nossa sociedade um dos maiores equívocos da civilização humana com a aprovação do Estado. Nosso Senhor “elogia”, no Evangelho de São Lucas (cf. 16,1-10), essa habilidade dos estultos e servidores do erro, dizendo que é uma lição para os que propugnam pelo bem e pela verdade. Se eles são ferrenhamente defensores do erro e da confusão, com igual ou superior persistência, defendamos a luz da verdade, pois, como avalia o frade dominicano, Professor Estevão Vallaro, “se os cristãos, em geral, empregassem, em defesa do bem, metade do esforço dos que lutam pelo erro e pelo mal, com atrativos e maneiras que agradam, creio que o mundo seria mais feliz”. Para difusão dessas ideias, os seus defensores têm como meta a “desconstrução” da sociedade, começando por minar a família e, com este intento, a educação dos filhos. (Nota Circular dos Bispos do Regional Nordeste 3 sobre a questão da Ideologia de Gênero).

Os bispos da Bahia e Sergipe enumeraram cinco partes inconvenientes para educação consoante à ‘ideologia de gênero’. Corroborando, como Pastor, as elenco aqui, apresentando-as com maiores detalhamentos: 1) A confusão causada nos crianças no processo de formação de sua identidade, fazendo-as perder referências acerca de uma salutar, biológica, necessária e consuetudinária noção de paternidade e maternidade; 2) A sexualidade precoce, na medida em que a ideologia de gênero promove a necessidade de uma diversidade de experiências sexuais para formação do próprio “gênero”. Pois, para tratar disto em sala de aula, por exemplo, as nossas crianças terão de, o quanto antes, ingressar nas fases de um antecipado autoconhecimento fisio-psicológico, pulando, destarte, etapas da puerilidade, desrespeitando a sua devida maturidade; 3) Num contexto em que há um combate por parte da sociedade como um todo, a 'ideologia de gênero' seria uma abertura perigosa para a legitimação da pedofilia, que poderá também ser considerada um tipo de gênero; 4) A banalização da sexualidade humana, aumentando a violência sexual, sobretudo contra as mulheres e homossexuais. Este fato, associado ao uso insensato da internet, poderá ser, maiormente, agravado; 5) A usurpação da autoridade dos pais, em matéria de educação de seus filhos, principalmente no tocante à moral e à sexualidade, já que todas as crianças serão submetidas às influências dessa ideologia, muitas vezes sem o devido conhecimento e consentimento dos pais, infringindo os valores cultivados pela sã educação familiar, fruto também de suas convicções religiosas.

Meus amigos e irmãos, esforcemo-nos para levar adiante a mensagem que dignifique a família e salve a sociedade de uma terrível crise, de identidade inclusive. Que nossa bondade, nossa palavra, nosso empenho no apostolado de Cristo-Verdade e no zelo pelo futuro invadam o mundo. É uma cruzada santa, para a qual Cristo pede o nosso coração, as nossas forças, a nossa capacidade e bom senso. Imediatamente, procurem os vereadores, prefeitos e educadores, cidadãos e eleitores, homens e mulheres de boa vontade, para que conversem, e, pelo diálogo franco, seja mostrada a posição contrária da maioria das famílias sobre a ‘ideologia de gênero’. Se nos entregarmos a esta árdua tarefa, não teremos trabalhado em vão. Em simultâneo, o bom Deus ficará feliz com todos nós.
            
Dom Dulcênio Fontes de Matos
Bispo Diocesano de Palmeira dos Índios


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Artigo: Confiar em Cristo

O mês de junho é um mês de muitas festas religiosas e populares. A festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo é o memorial de imenso benefício para todo cristão, recebido sob as espécies de pão e vinho. O mistério do amor de Deus por nós se faz alimento de vida e vida eterna. Jesus é nosso alimento. A manifestação pública da Eucaristia nos mostra que Jesus veio até nós para nos transformar numa comunidade de pessoas fraternas, solidárias, que vivem unidas na partilha, capazes de vencer as divisões e exclusões sociais.

Com grande alegria, iremos celebrar, dia 12, a Festa do Sagrado Coração de Jesus e, nesta ocasião, promover o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. A Igreja convida, portanto, todo o povo de Deus de nossas comunidades bem como as pessoas de boa vontade, para rezarem pelos seus sacerdotes para que, fiéis aos compromissos assumidos no dia da ordenação presbiteral, tenhamos uma vida íntegra e santa, de íntima e profunda comunhão com Jesus. Pois somente assim poderemos amar verdadeiramente o rebanho do Senhor que nos foi confiado. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é muito estimada pela Igreja e, particularmente, o Apostolado da Oração nos matricula na escola do Coração de Cristo, porque a Igreja e todos os batizados são dons do Sagrado Coração de Jesus. A ternura e a acolhida de Cristo para com todos deve ser o privilégio de nossa devoção ao Coração de Cristo, que sempre acolheu e nos ensina a acolher e a evangelizar.

A Festa de Santo Antônio é a festa de um dos grandes santos populares. Ele soube colocar sempre Cristo no centro da sua vida, do seu pensamento, da sua ação e da sua pregação. Peçamos-lhe que interceda por todos nós junto do Senhor Jesus, para que anunciemos, como ele, sem medo, não tanto com palavras, mas com o testemunho da vida, o Evangelho de Cristo, a Boa Nova da salvação.

Outras festas são bem conhecidas, celebradas e festejadas neste mês de junho: São João Batista, São Pedro ... que, pelos seus ensinamentos e testemunhos, deixemo-nos  tocar pela ação de Deus na nossa vida.

As leituras proclamadas, neste primeiro domingo do mês de junho, mostram a realidade do pecado causada pela nossa desobediência à Palavra do Criador, segundo o livro do Gênesis (Gn 3,9-15), assim como, a luta entre o “homem exterior” e “o homem interior”, conforme Paulo (2Cor 4,16). A Palavra de Deus (Mc 3,20-35) vem proclamar a vitória sobre o pecado por meio de Jesus Cristo. Ela já se encontra prefigurada na passagem do Gênesis que se refere à cabeça da serpente esmagada (Gn 3,15). É anunciada por Paulo, ao proclamar a ressurreição de Jesus e motivar a Comunidade de Corinto a não desanimar jamais. “Por isso, não desanimamos!”, afirma o Apóstolo (2Cor 4,16). Por fim, Marcos nos mostra o poder de Jesus de libertar o homem, perdoando os pecados, razão de ser de nossa força e esperança no combate espiritual. Em resposta à Palavra proclamada, somos convidados a crer em Jesus e nele confiar, fazendo sempre a “vontade de Deus” (Mc 3,35).

Levemos o amor do Coração de Cristo às periferias e que  juntos promovamos uma nova evangelização. Sagrado Coração de Jesus, temos confiança em vós!

Dom  Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Artigo: Praga apodrecida

O Papa Francisco proclamou, com bastante antecedência, o “Jubileu Extraordinário da Misericórdia”, através da Bula “Misericordiae vultus” (Rosto da misericórdia), afirmando, de início, que “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai.” Intencionalmente, o Papa chama os cristãos e a sociedade, em geral, a se colocarem diante da realidade do pecado, que manifesta as mais variadas formas do mal, vendo-a, porém, na ótica da misericórdia de Deus. A Bula do Papa Francisco tem três partes: “Na primeira, o Papa Francisco aprofunda o conceito de misericórdia e explica o porquê da escolha da data de início em 8 de dezembro, Solenidade de Maria (...) por coincidir com o 50º aniversário da conclusão do Concílio Vaticano II. (...) Na segunda parte, o Santo Padre oferece algumas sugestões práticas para celebrar o Jubileu. (...) Por fim, na terceira parte, Francisco lança alguns apelos contra a criminalidade e a corrupção - dirigindo-se aos membros de grupos criminosos e aos corruptos”.

Em qualquer situação, a misericórdia de Deus supõe, necessariamente, a conversão de quem pratica males como a criminalidade e a corrupção, como ensina o Papa. “O meu convite à conversão dirige-se, com insistência, ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida. Peço-vos isso em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca rejeitou qualquer pecador. Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro conosco para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem imortais. Para todos, mais cedo ou mais tarde, vem o juízo de Deus, do qual ninguém pode escapar. O mesmo convite chegue também às pessoas defensoras ou cúmplices de corrupção. Esta praga apodrecida da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua preocupação e avidez, destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. Corruptio optimi pessima: dizia, com razão, São Gregório Magno, querendo indicar que ninguém pode sentir-se imune desta tentação. Para erradicá-la da vida pessoal e social são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia. Se não se combate abertamente, mais cedo ou mais tarde torna-nos cúmplices e destrói-nos a vida. Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afetos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza.”

Criminalidade, um mal que atinge a dignidade da vida, e a corrupção, uma “praga apodrecida”, comumente, andam juntas porque têm protagonistas que seguem a mesma cartilha.
                                               
Dom Genival Saraiva

Bispo Emérito de Palmares - PE 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Artigo: Deus único em três pessoas

A fé cristã é fé num Deus único em três pessoas. No domingo depois de Pentecostes celebra-se a festa da Santíssima Trindade. Um mistério revelado na Sagrada Escritura. Deus é um só, uma essência eterna, infinita, onipotente, imutável. Deus é absolutamente um, que não pode ser multiplicado nem dividido: ele é Amor todo inteiro, inteiro na beleza, inteiro na infinitude, inteiro na onipotência e na onipresença. Só há um Deus, absolutamente uno, Senhor do céu e da terra, diferente e para além de tudo quanto existe, de tudo quanto possamos compreender e imaginar.

Enquanto a natureza humana, apesar de genericamente uma só, se multiplica nos indivíduos humanos, a natureza divina é absolutamente una, indivisível e imultiplicável, una não só genérica, mas também numericamente; e, no entanto, essa natureza é, ao mesmo tempo e perfeitamente, Pai, Filho e Santo Espírito. A natureza divina está toda no Pai e, incompreensivelmente, toda no Filho e, ainda, toda no Espírito Santo. A unidade em Deus é incompreensível, absolutamente perfeita e eterna. Assim sendo, em Deus não há três vontades iguais, mas uma só vontade; não há três poderes iguais, mas um só poder, não três consciências iguais, mas uma só consciência. Deus é absolutamente UM! E, no entanto, os três divinos são absolutamente diversos: só o Pai gera, só o Filho é gerado, só o Espírito é a própria Geração; só o Pai é o Amante, só o Filho é o Amado, só o Espírito é o Amor.

Nós conhecemos o amor de Deus e sua vida íntima, porque o Pai amou tanto o mundo, a ponto de enviar o seu Filho e, pelo Filho, derramou no nosso coração o Espírito do Filho que, em nós, clama Abbá, Pai. Por isso, podemos dizer que Deus é amor e, quem não ama, não conhece a Deus! E toda esta vida divina, amados, nos é dada desde o Batismo, quando fomos mergulhados no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; e cresce em nós a cada dia, nos sacramentos e na vida cristã, preparando-nos para nosso destino eterno: plenos do Espírito, sermos totalmente inseridos no Cristo e nele configurados, para contemplar eternamente o Pai!

O mistério da Trindade não desapareceu da vida da Igreja. Descobrir a Trindade é uma experiência sempre boa para a vida espiritual e é também uma necessidade para a fé.
Ao nascermos, somos inseridos em Deus no Batismo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Esta fé trinitária recebida se expressa continuamente através da oração, como o Creio e o sinal da cruz. Ao fazer o sinal da cruz, expressamos a nossa fé no Deus Trindade, a ele confiando a nossa vida. Ao iniciarmos e terminarmos o dia, uma celebração, fazemos o sinal da cruz em nome da Trindade. Iniciamos os momentos importantes da vida em nome de Deus uno e trino.

Somos convidados a crescer na fé diante do mistério de um só Deus que se revela em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito. A Santíssima Trindade expressa o mistério infinito do amor de Deus por nós. O Deus Trino é o Deus-conosco! Que a Virgem Maria, criatura perfeita da Trindade, nos ajude a fazer de toda a nossa vida, nos pequenos gestos e nas escolhas mais importantes, um hino de louvor a Deus, que é Amor”.

É importante, portanto, que em tudo demos graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo; por todo o nosso ser e agir, por toda a nossa vida.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Artigo: Pentecostes, festa da unidade e da missão

A festa de Pentecostes celebra, sobretudo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o divino Espírito Santo, a alma da Igreja. Não se pode conceber vida cristã nem Igreja sem a presença e ação do Espírito Santo. Nós cremos no Espírito Santo, “que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”.

Esta festa reúne a todos e conclui o Tempo Pascal, cinquenta dias entre o Domingo da Ressurreição e o Domingo de Pentencostes. É o contrário de Babel. No Espírito Santo, espírito de amor e unidade, todos podem entender-se. Há uma variedade de dons, mas todos eles a serviço da unidade. Cada pessoa recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. Pelo batismo, o Espírito gera um só Corpo, o Corpo de Cristo, sem distinção de pessoas.

O Espírito Santo vem e é acolhido por Maria e os Apóstolos reunidos em oração, no cenáculo, por ocasião da festa hebraica de Pentecostes. Os sinais de sua presença são destacados. O Espírito ilumina e anima os discípulos, levando-os a superar o medo e a anunciar o Evangelho. Ele une os que falavam línguas diferentes, fazendo-os compreender a pregação dos Apóstolos, “pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua” (At 2,8). Portanto, quem recebe o Espírito Santo promove a unidade e testemunha o Evangelho, com coragem e alegria.
  
É no Espírito que Cristo habita realmente em nós, desde o nosso batismo, e faz crescer sua presença em nós em cada eucaristia, quando comungamos o corpo e o sangue daquele Senhor, que é pleno do Espírito. Só no Espírito podemos dizer que Cristo permanece em nós e nós permanecemos nele; só no Espírito podemos dizer que já não somos nós que vivemos, mas Cristo vive em nós, com seus sentimentos, suas atitudes e sua entrega ao Pai. Por isso, somente no Santo Espírito nossa vida pode ser vida em Cristo, vida de santidade.

Mas, o Espírito, além de agir em cada cristão, age na Comunidade como um todo, edificando a Igreja, fazendo-a sempre corpo de Cristo. Antes de tudo, ele vivifica a Igreja com a vida do Ressuscitado, incorporando sempre nela novos membros, fazendo-a crescer mais na plenitude de Cristo. Depois, ele suscita incontáveis ministérios, carismas e dons. É o Espírito que mantém esta variedade em harmonia e unidade, para que tudo e todos contribuam para a edificação do corpo de Cristo, que é a Igreja.

Pentecostes não pode ficar restrito à Liturgia, mas deve se prolongar no dia a dia através da vida no Espírito. É preciso deixar-se conduzir pelo Espírito Santo para discernir a vontade de Deus, produzir os frutos que ele espera de nós e assumir a missão de evangelizar, com ânimo renovado.

Necessitamos sair ao encontro de todos, especialmente dos que mais sofrem, para compartilhar a alegria do Evangelho. Cada um, cada grupo, cada movimento, cada pastoral, cada serviço, cada comunidade, na harmonia da Igreja, se dirija ao Pai com Jesus pedindo a renovação da efusão do Espírito Santo. Também, hoje, como no dia do seu nascimento, a Igreja invoca juntamente com Maria: Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

terça-feira, 29 de julho de 2014

Os sujeitos e tarefas da conversão pastoral (I)


Queridos irmãos e irmãs!
Quero continuar a falar sobre o documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia. A conversão pastoral da paróquia”. Faço-o para reconhecer a importância e a urgência do tema, pois não podemos deixar a graça da conversão pastoral, verdadeiro espirito da renovação eclesial, começada naquele evento que marcou a vida da Igreja, o Concílio Vaticano II (1962-1965). E mais, na esteira do Concílio, o que o Espírito Santo realizou na nossa Igreja latino-americana, com as conferências gerais do Episcopado: Rio de Janeiro (1956), Medellin (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), sem esquecer a fecundidade da Igreja no Brasil, com o seu ensinamento, suas assembleias gerais, e com seus mais de 100 documentos publicados nestes mais de 50 anos de existência da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB).
Sabemos todos, irmãos e irmãs, que a vida da Igreja precisa sempre de renovação. Não é de hoje que a Igreja tem consciência disso. Desde os tempos apostólicos, passando pelo período patrístico, a Idade Média até nos tempos modernos, a consciência de que os seguidores de Jesus não podem ficar para trás, retrocederem diante da ação da graça de Deus, hoje, da missão do Espírito Santo que realiza o plano ou desígnio divino do anúncio da salvação, da chegada do Reino de Deus para todos os homens e mulheres. E mais, a própria mensagem, o querigma cristão é um anúncio de perdão, de reconciliação e de paz. Então, sempre a Igreja necessita se perguntar: “Senhor, que queres que eu faça?” Isto é, devemos sempre estar abertos ao hoje da ação do Espírito. Por isso, a convocação de Aparecida, da CNBB e agora, com muita satisfação para nós Igreja latino-americana, os apelos do Papa Francisco, para que sejamos mais missionários, isto é, uma Igreja em saída e não preocupada com seu interno e suas estruturas, quase esquecendo dos fiéis, é uma chamada de atenção, uma convocação inadiável: o seguimento a Jesus leva à sequela Christi, isto é, à imitação de Cristo, pastor, servidor, acolhedor e misericordioso. Este é o principio fundamental. A Igreja o enfatiza na sua Doutrina Social, quando reconhece que a dignidade da pessoa humana é o principio fundamental a ser defendido na sua doutrina. Mas, isto é porque o próprio Deus na sua revelação mostrou-se sempre do lado do homem e da mulher. A conversão para a missão consiste nisso: a Igreja vive para evangelizar, isto é, para ir ao encontro das pessoas e lhes anunciar o amor de Deus e ela [a Igreja], primeiramente nos seus membros, ministros ordenados e leigos engajados, deve compartilhar com as pessoas esse mesmo amor. Não esqueçamos disso: o que nós falamos sobre Deus e sua mensagem não é um conhecimento que entregamos fechado em esquemas ou sistemas de pensamento. O que anunciamos é o que vivemos. Se falamos que Deus é amor, não será suficiente se não amamos aqueles para os quais dizemos que Deus os ama. Essa é uma lei básica da missão. Segundo o documento de Aparecida, as diretrizes da ação evangelizadora da CNBB, o plano pastoral arquidiocesano e o ensinamento de Papa Francisco, não seremos fiéis a Jesus Cristo se ficarmos apenas dando receitas para curar os outros e não somos curados também. Ou, dando respostas para perguntas nunca feitas.
Dom Jaime Vieira Rocha
Arcebispo metropolitano de Natal

terça-feira, 22 de julho de 2014

Dom Fernando Saburido: Carta em vista das Eleições 2014



“Já lhe foi explicado o que é bom e o que Deus exige de você: é apenas que pratique a justiça e o direito, amar a misericórdia e, com simplicidade, caminhar com Deus” (profeta Miquéias 6, 8). 

Queridos irmãos e irmãs,
terminada a Copa do Mundo começa agora, com maior intensidade, a campanha eleitoral. Como pastor desta Igreja, que juntos constituímos, me sinto no dever de partilhar com vocês algumas preocupações e propor critérios para a nossa participação como cidadãos/ãs e como cristãos/ãs nesse importante momento do país.
Há cristãos que ainda pensam que a fé possa ser desligada da realidade concreta. Se nos desinteressamos pelo processo político, corremos o risco de deixar a Política nas mãos dos que não buscam o interesse comum. Como afirmou o papa Francisco: “Apesar de se notar uma maior participação de muitos (cristãos) nos ministérios laicais, esse compromisso (de fé) não se reflete ainda suficientemente na penetração dos valores cristãos no mundo social, político e econômico. Limita-se muitas vezes às tarefas no seio da Igreja, sem um empenho real pela aplicação do Evangelho na transformação da sociedade” (EvangeliiGaudium, n. 102).
Graças a Deus, no caminho ao qual o papa Francisco nos chama, a nossa arquidiocese tem uma longa e bela caminhada que devemos honrar e aprofundar cada vez mais. Desde que, há 50 anos, Dom Helder Camara chegou como pastor de nossa Igreja arquidiocesana, cada vez é maior o número de cristãos que descobrem que nossa vocação batismal nos chama a ser testemunhas do reino de Deus nesse mundo, pelo esforço de transformá-lo. Já nos anos 60, o papa Paulo VI ensinava que a nossa caridade deve ter uma dimensão política. Concretamente, ela se expressa no cuidado com a coisa pública e em uma educação crítica que nos ajude a compreender melhor a realidade e a discernir nela o que Deus pede de nós como cidadãos e como discípulos de Jesus.
Desde a 2a Conferência do Episcopado Latino-americano em Medellín, Colômbia, (1968), a nossa Igreja se comprometeu a se colocar como serviço à causa da libertação integral de toda a humanidade e de cada pessoa por inteiro (Med 5, 15). Por isso, nossa Igreja desenvolveu diversos setores de pastoral social, cujo objetivo é servir, de maneira especial, a todos os empobrecidos do campo e da cidade. Inseridos na medida do possível, na caminhada dos movimentos sociais, queremos colaborar com a transformação da sociedade. É com esse horizonte que lhes escrevo. Tendo feito algumas observações sobre nossa motivação evangélica e espiritual a partir da qual devemos atuar, sugiro agora algumas considerações sobre o momento atual em que vivemos eproponho algumas pistas concretas de ação para a nossa participação nesse processo eleitoral e mesmo depois.
1 – Um olhar rápido sobre a realidade.
Na análise da conjuntura que a CNBB ofereceu em seu site no mês de abril passado, se afirmava que, para essas próximas eleições, se descortinam duas tendências. Uma é dos que querem garantir a continuidade das conquistas sociais e daquilo que consideram serem mudanças realizadas pelo governo nessa última década. Outra é a das pessoas e candidatos que dizem lutar por mudanças profundas do país e do governo. O importante é discernir se esses políticos que propõem mudanças o fazem a serviço da melhoria de vida da maioria da população ou se pensam apenas neles e na elite social a que pertencem.
Em geral, é a população que sofre no dia a dia as precárias condições dos serviços públicos de saúde, de educação e do transporte inadequado. Em nossas cidades precisamos de mudanças profundas na organização e serviços à sociedade. Não podemos nos iludir de que tais transformações dependam apenas de pessoas a serem eleitas. É a própria organização social e política do Brasil que está em questão.
2 – Critérios que poderão ser úteis para participarmos bem dessas próximas eleições:
1o – Como dizia em recente campanha educativa de várias entidades: “voto não se vende, nem se negocia” ou “voto não tem preço, tem consequência”. O voto deve ser dado conforme nossa consciência e não por qualquer outro motivo, como parentesco, apadrinhamento, interesse de emprego ou qualquer outra razão.
2o - Em um regime de eleições proporcionais como é o caso atualmente, queiramos ou não, o voto é dado em primeiro lugar ao partido do candidato e somente vai para o candidato escolhido, se o partido tiver o necessário quociente eleitoral. Essa é a legislação em vigor. Assim sendo, mais ainda, é importante que a nossa escolha seja consciente por concordarmos com o que aquele partido escolhido por nós propõe como programa para o país.
3o – É comum que as campanhas sejam feitas na base de promessas e propagandas, muitas vezes sedutoras e enganosas. Devemos sempre analisar o interesse dos meios de comunicação de massa e também a vida anterior dos candidatos em questão, para discernir se as promessas feitas agora correspondem ao que ele tem feito e se não se trata de propaganda enganosa.
4o – Nenhum candidato é perfeito ou preenche todas as condições desejáveis. Às vezes, o candidato tem propostas que nos agradam no plano da moral pessoal e institucional. No entanto, está ligado a interesses dos grandes latifundiários na concentração de terra, na oposição à Reforma Agrária e à demarcação de terras indígenas. Apresenta-se como cristão tradicional, mas não tem posição clara em relação à defesa da vida desde sua concepção até seu fim natural. Para resolver o problema da violência urbana, propõe a diminuição da idade penal, é a favor da pena de morte e assim por diante. Temos sempre de julgar no conjunto e não vendo apenas um aspecto.
5o – O cristão vive, pensa e age a partir de sua fé. A fé o conduz a trabalhar pelo bem comum. Isso requer organização e participação cidadã. É preciso discernir os partidos e candidatos a partir dos seus princípios éticos, sociais e religiosos e se estão dispostos a colaborar para o avanço.
 3 – Um olhar para além das eleições de outubro
Devemos participar de forma justa e lúcida nessa campanha, assim como participar corretamente dessas próximas eleições. No entanto, para não sofrermos mais decepções, é importante relativizar esse processo eleitoral e sabermos como nos conduzirmos para além desse momento. Atualmente, a parte mais sadia da sociedade brasileira e dos movimentos sociais têm consciência de que sem uma profunda Reforma Política não conseguiremos vencer a corrupção e estabelecer as bases profundas de uma sociedade mais justa e igualitária. Para isso, a CNBB, OAB e várias outras entidades da sociedade civil propõem um Projeto de Lei de Iniciativa Popular, visando elementos necessários para uma reforma política. Os movimentos sociais organizados preveem para a Semana da Pátria a realização de um Plebiscito Popular no qual o povo brasileiro será consultado se deseja a criação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva para a Reforma Política e Soberana.
Como cristãos, devemos apoiar e participar dessas iniciativas que visam a transformação justa da sociedade e da organização do Estado. Como escreveu São Paulo: “Estejam atentos para a maneira como vocês vivem. Não sejam ingênuos, mas pessoas sensatas. Aproveitem bem o tempo, porque esses dias são maus… (Em meio a essa realidade), procurem compreender a vontade do Senhor” (Ef 5, 15 e 17).
Concluo recomendando a leitura da carta dos bispos do Brasil, que se encontra no site da CNBB (www.cnbb.org.br), aprovada na última Assembleia Geral em Aparecida-SP, cujo título é: “PENSANDO O BRASIL: DESAFIOS DIANTE DAS ELEIÇÕES 2014” (Desafios da realidade sociopolítica).
Deus os/as abençoe e os/as ilumine nesse caminho.
Dom Antônio Fernando Saburido
Arcebispo de Olinda e Recife

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Artigo: Sant’Ana de todos nós


            Desde a minha nomeação, no dia 12 de fevereiro deste, que escuto as pessoas do Seridó falarem de Santana com devoção e empolgação. Falam da festa de Santana como um grande evento, um “patrimônio imaterial”.

            Aproxima-se a festa de Santana, mais uma festa para tantas pessoas, a primeira festa que participarei aqui no nosso sertão do Seridó. Se para muitos cresce a ansiedade, na medida em que a festa se aproxima, para mim cresce a expectativa. Quero ver com os meus próprios olhos aquilo que tantos outros olhos viram e se encantaram, que tantas bocas falaram e falam até hoje.

            Confesso a vocês que até o presente momento, Santana é uma ilustre desconhecida. Nunca trabalhei numa comunidade que tivesse Santana como padroeira e não sabia dizer muita coisa a respeito dela, a não ser que ela é a esposa de S. Joaquim, a mãe de Maria, a avó de Jesus e a sogra de José.

            Com certeza ela representa muito mais do que isso, do contrário não haveria uma devoção tão grande. Procurarei, nesta primeira festa que participarei como bispo de Caicó, ver o que os meus olhos ainda não viram, mas que tantas pessoas se encantaram.

            Quando eu vou a Aparecida, paro diante da imagem da padroeira do Brasil para rezar. Mais do que rezar olhando para aquela imagem pequenina, rezo contemplando o rosto de tantas pessoas humildes admirando a imagem da Negra Aparecida. Tento ler e ver quantas histórias de sofrimento, de alegria, de graça, de fé que estão por trás daqueles olhares. Peço o Virgem Aparecida que interceda ao Pai para que eu possa ter uma fé semelhante à fé vivida por aquelas pessoas simples.

Na festa de Santana procurarei ver em cada olhar que contempla a imagem, a alma do seridoense, as histórias que estão contidas em cada olhar, escritas no olhar de Santana. Pedirei que minha alma carioca com sangue alagoano vá assimilando elementos da alma seridoense, que a minha fé cresça e amadureça como a fé do homem do sertão nordestino, que é forte como o mandacaru, que resiste a secura da dor, desde que haja um pingo de gota da graça de Deus.

 Se é verdade que cada pessoa projeta e transfere para aquilo que vê, o que carrega no seu coração; também é verdade que um santo é um reflexo de Deus, um espelho opaco do olhar do criador. Procurarei ver em Santana uma faceta da Trindade, que como mãe sábia gera, cuida e educa todas as gerações futuras.

Na Missa da Terra Sem Males, o canto pós comunhão, lembrando a Virgem de Guadalupe, diz: “Morena de Guadalupe, morena do Tepeyac, congrega todos os índios na estela do teu olhar”. Plagiando este hino gostaria de dizer: Santana de Caicó, Santana do Seridó, congrega toda a diocese no brilho do teu olhar. Que o nosso olhar esteja na mesma direção do olhar de Santana, que olha para Maria, que olha para Jesus, que olha para o Pai e por todos nós. Que tenhamos “olhos fixos em Jesus”.

Que venha a festa de Santana!

Santana de Caicó, de Currais Novos, do Seridó e de todos nós, intercedei por nós. Amém.

Dom Antonio Carlos, msc 
Bispo de Caicó-RN

domingo, 13 de julho de 2014

Artigo: E agora, Brasil?


             O sonho ou ilusão do Brasil vencer a Copa do Mundo em casa acabou. Vários relatos falam de vergonha, vexame histórico dentro de casa, desastre histórico, o mundo desabou sobre nossa cabeça. Qual a causa? Parece difícil enfrentar a realidade. Mas é verdade. A derrota do futebol brasileiro na Copa do Mundo no Brasil é motivo de esperança. Eis a vitória da competência sobre a malandragem. Oportunidade para limpar os desmandos que vêm acontecendo no futebol brasileiro. É hora de acordar e agir. Não faltou investimentos para a Copa do Mundo e para derrubar e construir novos e modernos estádios. Mas falta sempre investimentos nas questões sociais e na qualidade de vida do povo brasileiro. São muitas as lições. O povo brasileiro, no jogo da vida, continuará a lutar com esperança. É preciso jogar contra os nossos adversários: corrupção, violência, falta de saúde e educação de qualidade ao alcance de todos; falta de condições dignas de moradia, trabalho e transporte; falta uma reforma política no país e campanhas eleitorais dignas. É nossa esta partida. Esta Copa é exemplo para as gerações futuras. Este foi o primeiro tempo do jogo. Inexplicável? Apagão? Nada disso. Não nos deixemos levar por respostas fáceis, simplistas, interesseiras e falsas.

            O segundo tempo já começou. Aqui a malandragem é sofisticadíssima. Mas há tempo, para o povo brasileiro jogar bem e ganhar com maestria e merecimento. O Brasil merece a vitória nas eleições deste ano. Ninguém pode eximir de participar consciente e responsavelmente da promoção do bem do País, e as eleições são uma grande ocasião. As condições de sofrimento, exclusão social, violência e injustiça, em que vivem muitos brasileiros, não condizem com a dignidade humana nem dão glória a Deus.

            O Brasil não pode ser traído pelo seu próprio povo. É importante a vitória do Brasil, não de pessoas desonestas e corruptas, que só pensam em si mesmas ou no seu grupinho e não no bem comum. A vitória do Brasil é importante não só porque presidente, senadores, deputados e governadores têm uma incidência grande na vida do povo, mas porque está em jogo também o projeto político, social e econômico do país. A nossa vitória é a construção de uma sociedade igualitária, de respeito às diversidades, que produza a vida não para o aumento do consumo, que tenha a natureza como parceira da vida e um Estado que seja promotor do bem comum.

            Não queira prorrogação da situação de descaso social que experimentamos atualmente em nosso país, nem deseje ouvir explicações depois dos resultados das eleições, como: “apagão”, “inexplicável” e “povo escolhe mau seus representantes”. Os anseios do povo não podem ser ignorados. As eleições dão ocasião de vitória sobre os desmandos que estão acontecendo no Brasil em todos os níveis. Somos responsáveis pela vitória do nosso país. Que o resultado das eleições seja digno e possibilite a volta da alegria e o eco verdadeiro do canto “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". E agora, o Brasil, todo o povo, será vitorioso.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)