Diocese de Afogados da Ingazeira debate desmatamento e exploração de recursos naturais no Pajeú

Seminário, com o título "A Caatinga, Guardiã da Água", ocorreu dentro da 13ª Semeia (Semana do Meio Ambiente).

Diocese de Salgueiro inicia preparativos para Assembleia Diocesana de Pastoral

Preparativos têm início com Assembleia na Área Pastoral São Marcos.

Na solenidade de Corpus Christi, dom Fernando Saburido convida fiéis a serem “Eucaristia” para o próximo

Celebração foi realizada na quinta-feira, 04, na Igreja do Santíssimo Salvador do Mundo – Sé de Olinda/PE.

Dom Antônio Muniz, arcebispo de Maceió, recebe alta médica

Dom Antônio foi internado para cirurgia cardíaca realizada dia 20 de maio.

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Artigo: O Pão Partilhado

Jesus se apresenta como o Pão da Vida, que multiplica os pães, saciando a fome da multidão (cf. Jo 6,1-15). O pão recorda que não possuímos a vida de modo absoluto. Devemos sempre renová-la e lutar por ela. Precisamos, sim, do pão de cada dia. E, não podemos, sozinhos, prover-nos de pão: é Deus quem faz a chuva cair, quem torna o solo fecundo, quem dá vigor à semente. Assim, a vida humana está continuamente na dependência do Senhor. Portanto, todos necessitamos do pão nosso de cada dia – e este é dom de Deus. 

Ao multiplicar os pães, Jesus apresenta-se como aquele que dá vida, que nos sacia com o sentido da existência. Pois, não há vida de verdade para quem vive sem saber o sentido do viver. Ele, num lugar deserto, manda o povo sentar-se sobre a relva, toma uns pães e uns peixes, dá graças, parte, e os distribui multiplicando-os. Todos comeram e ficaram saciados. Só que o povo, após o milagre, foi à procura do Senhor e ele repreendeu duramente a multidão: "Vós me procurais não porque vistes os sinais, mas porque comestes pão e ficastes saciados!" Que sinal o povo deveria ter visto? Recordemos o trecho: "Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo" (Jo 6,14). Veja: o povo até que começou a discernir o sentido do milagre de Jesus; mas, logo depois, fascinado simplesmente pelo pão material, pelas necessidades de cada dia, esquece o sinal. Que sinal? Que Jesus é o Novo Moisés, aquele profeta que o próprio Moisés havia anunciado em Dt 11,18: "O Senhor Deus suscitará no vosso meio um profeta como eu". Como Moisés, Jesus reúne o povo num lugar deserto, como Moisés, sacia o povo com o pão. Mas, Jesus é mais que Moisés: ele é o Deus-Pastor que faz o rebanho repousar em verdes pastagens e lhe prepara uma mesa. Era isso que o povo deveria ter compreendido; foi isso que não compreendeu. 

Hoje, compreendemos os sinais de Cristo em nossa vida? Os gestos de Jesus na multiplicação dos pães é também prenúncio da Eucaristia. Os quatro gestos por ele realizados – tomou o pão, deu graças, partiu e deu – são os gestos da Última Ceia e de todas as ceias que celebram o sacrifício eucarístico do Senhor. Na Missa, tornam-se presentes os gestos do Senhor, dado em sacrifício e recebido em comunhão. 

Deus conta, hoje, com o pouco que podemos oferecer para multiplicar o pão, assim como Jesus contou com a colaboração das pessoas para realizar tantos outros milagres, “sinais” da chegada do Reino.  Não se oferece apenas o que sobra ou que tem pouco valor, mas o que se tem e que se considera importante. Os bens partilhados são dons de Deus. 

Infelizmente, há muita indiferença perante o drama da miséria e da fome no mundo. É preciso partilhar generosamente e acabar com a corrupção. Coloquemos nossa fé em Jesus Cristo, o verdadeiro Pão, que vem saciar a nossa fome de vida e que, através de nós, apesar da nossa fragilidade e pequenez, quer saciar a fome sofrida por tanta gente: fome do pão cotidiano nas casas, fome do pão da Palavra e da Eucaristia. 

Portanto, não deve faltar a fé em Deus, que sacia a nossa fome, assim como, a disposição em partilhar os nossos bens com os necessitados. A celebração eucarística, no qual partilhamos o Pão da Vida, seja fonte e sustento da partilha do pão cotidiano. É partilhando o pão da vida que podemos enfrentar com fraternidade as necessidades deste mundo.

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Artigo: A pastoral de Jesus

         
Tudo quanto temos para gritar ao mundo é Jesus, o Bom Pastor! Ele é a Palavra viva do Pai, o Salvador e a Salvação. É a ele que a Igreja dirige seu olhar e seu coração, para contemplá-lo, escutá-lo e nele beber das fontes da vida e da paz.

Em Israel, pastores do povo eram seus dirigentes: reis, sacerdotes, escribas, profetas. Infelizmente, de modo frequente, esses eram pastores maus e infiéis (cf. Jr 23,1-6), pois não faziam o que era de se esperar de quem apascenta: não amavam o rebanho, dele não cuidavam, com ele não se preocupavam. Faziam como a maioria dos políticos brasileiros de agora, sem terem outra preocupação que o próprio bem-estar, poder e prestígio. Assim dizia Santo Agostinho:“procuram somente o leite e a lã das ovelhas, sem com elas se preocuparem”.

Os pastores do povo de Deus, que é a Igreja, os ministros de Cristo,  também o Senhor repreende e a eles exorta a que se convertam e sejam pastores de verdade. Mas, quem é pastor de verdade na Igreja? Quem se deixa plasmar pelo verdadeiro Pastor, pelo único Pastor, aquele que é a própria justiça, a própria santidade de Deus: "Este é o nome com que o chamarão: 'Senhor, nossa Justiça'", Jesus Cristo (cf. Jr 23,6). 

Jesus: "Ao desembarcar, viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas" (cf. Mc 6,34).Que cena sublime! Jesus cansado, pensando em algo tão legítimo: um dia de descanso em companhia dos Doze. E quando chega ao local escolhido para o merecido repouso, lá estava a multidão cansada, sedenta de luz, de vida, de verdes pastagens, desorientada, como ovelhas sem pastor. E Jesus, Bom Pastor, esquece de si mesmo, deixa de lado seu cansaço e, cheio de compaixão, vai cuidar das ovelhas. Por isso mesmo, ele é o Pastor por excelência. Ele ama o rebanho, preocupa-se com ele, dele se compadece e por ele vai derramando, diariamente, a própria vida. Nunca se viu Jesus poupar-se, nunca se testemunhou Jesus fazendo um milagre em benefício próprio, nunca se apanhou o Senhor buscando algum favor para si. Toda a sua vida foi para o rebanho, por amor ao Pai, vida doada, entregue de modo total até a morte e morte de cruz. Tem razão São Paulo: "Agora, em Jesus Cristo, vós que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos, pelo sangue de Cristo. Ele, de fato, é a nossa paz!"(Ef 2,13s). O Bom Pastor, entregando a vida pela humanidade, nos atraiu, abrindo um novo caminho, suscitando uma nova esperança, reunindo-os todos no seu aconchego, no seu coração de Pastor, dando-nos a paz e fazendo de nós a sua Igreja. No mundo de hoje, marcado por tantas divisões e violências, necessitamos anunciar que Cristo “é a nossa paz” (Ef 2,14), promovendo a reconciliação e a unidade. “Somos da paz” é o lema deste Ano da Paz, vivido pela Igreja Católica no Brasil, nos motivando a promover a paz hoje.

O exemplo de Cristo é motivo de questionamento e chamado à conversão. Sejamos como ele, sejamos presença dele no mundo, tendo seus sentimentos, suas atitudes, participando de sua entrega total. Confiemos totalmente no Senhor, ainda mesmo que passe pelo vale tenebroso, porque sabe que o pastor é fiel (cf. Sl 22). Sigamo-lo, nele coloquemos a nossa existência. A pastoral de Jesus é cuidar das multidões e dos futuros pastores (cf. Mc 6,30-34). Ninguém é na Igreja somente pastor, mas também ovelha, e ninguém é somente ovelha, mas também pastor, isto é, responsável pelos irmãos. Sejamos, hoje, solidários e acolhedores.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Artigo: A justiça dos homens e a fé nas pessoas

Brasão_Dom_Saburido
(A respeito da PEC 171 que trata da redução da maioridade penal)
Dom Fernando Saburido,Arcebispo de Olinda e Recife
A Comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou no último dia 17 de junho a medida para reduzir a idade penal de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. De nada adiantou a recente nota pública da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmando que reduzir a maioridade penal é uma medida imoral, além de inócua. Também a OAB e outras entidades se pronunciaram na mesma linha da CNBB. Foi ainda inútil argumentar que tal decisão viola a Constituição Brasileira de 1988 e, segundo a UNICEF, organismo da ONU, desrespeita a Convenção Internacional das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, que o Brasil assinou em 1989.
Infelizmente, no nosso país, percebe-se que no lugar de argumentos sólidos, as pessoas se deixam envolver pelo clima emocional criado por alguns meios de comunicação de massa e por preconceitos de classe que acabam sempre penalizando a pobreza e condenando a maioria de nossos jovens à marginalidade.  Afinal, como afirmou a nota da CNBB: “Para a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Ideli Salvatti – antes de discutir a violência cometida pelos adolescentes, precisamos tomar providências efetivas em relação à violência cometida contra os jovens. Hoje, os casos em que os adolescentes cometem atos infracionais que provocam a morte de alguém representam o percentual de apenas 0,1%, enquanto os adolescentes se constituem como 36% das vítimas de homicídio”… “É, portanto, imoral querer induzir a sociedade a olhar para o adolescente como se fosse o principal responsável pela onda de violência no país”.
Todos sabem da situação do sistema prisional brasileiro. Prisões superlotadas, condições carcerárias desumanas, insegurança total de vida e da integridade dos prisioneiros. Conforme os agentes da Comissão Nacional da Pastoral Carcerária, os presídios e cadeias servem como instrumentos de punição e vingança da sociedade e não, como deveriam ser, centros de reeducação das pessoas e reintegração social. Por isso, acabam se tornando mais escolas do crime do que meios de reabilitação. Uma pesquisa feita em São Paulo revela que 60% das pessoas que estiveram em presídios brasileiros acabam voltando. Desses, quase todos são pobres e de periferia e a maioria negros.
Muitos têm escrito sobre as falhas jurídicas e sociológicas que um tipo de iniciativa como a redução da maioridade penal acarreta. Como ministro da Igreja, prefiro apontar a aberração que é o fato de que muitos parlamentares que levantam esse tipo de propostas se dizem cristãos.  É um insulto ao Evangelho o fato de que, no Congresso atual, os que se dizem da “bancada da Bíblia” se unam aos da bancada da Bala (defensores da violência como solução dos problemas sociais) e do Boi (antipáticos à reforma agrária e indiferentes aos pequenos lavradores e índios). Todos esses, em geral, a serviço dos seus interesses ideológicos ou partidários, não ligam minimamente a fé com a ética. Ainda não entenderam que na Bíblia, o nome de Deus é “O Senhor, nossa justiça” (Jr 23, 6). Essa justiça divina não é como a dos homens – simplesmente punitiva e até vingativa. Ela é como defende a Pastoral Carcerária, uma justiça restaurativa. Torna o presidiário responsável por sanar de todos os modos possíveis os prejuízos causados por seu crime, mas de modo que o objetivo seja a redenção da pessoa e a libertação tanto dos culpados, como das vítimas. O anúncio do reino de Deus propõe ao pecador a conversão e inclui o perdão, baseado na justiça restaurativa, capaz de refazer laços sociais solidários. Evangélicos ou católicos, que apresentam de Deus a imagem de um carrasco cruel e vingativo não merecem o nome de cristãos. A mensagem fundamental de Jesus é o amor e a não violência. Sua proposta é a solidariedade como principio de vida, sobretudo com os mais pequeninos e frágeis da sociedade. Por isso, como declara a citada nota da CNBB: “A Igreja no Brasil continua acreditando na capacidade de regeneração do adolescente, quando favorecido em seus direitos básicos e pelas oportunidades de formação integral nos valores que dignificam o ser humano”.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Artigo: Pentecostes, festa da unidade e da missão

A festa de Pentecostes celebra, sobretudo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, o divino Espírito Santo, a alma da Igreja. Não se pode conceber vida cristã nem Igreja sem a presença e ação do Espírito Santo. Nós cremos no Espírito Santo, “que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”.

Esta festa reúne a todos e conclui o Tempo Pascal, cinquenta dias entre o Domingo da Ressurreição e o Domingo de Pentencostes. É o contrário de Babel. No Espírito Santo, espírito de amor e unidade, todos podem entender-se. Há uma variedade de dons, mas todos eles a serviço da unidade. Cada pessoa recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. Pelo batismo, o Espírito gera um só Corpo, o Corpo de Cristo, sem distinção de pessoas.

O Espírito Santo vem e é acolhido por Maria e os Apóstolos reunidos em oração, no cenáculo, por ocasião da festa hebraica de Pentecostes. Os sinais de sua presença são destacados. O Espírito ilumina e anima os discípulos, levando-os a superar o medo e a anunciar o Evangelho. Ele une os que falavam línguas diferentes, fazendo-os compreender a pregação dos Apóstolos, “pois cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua” (At 2,8). Portanto, quem recebe o Espírito Santo promove a unidade e testemunha o Evangelho, com coragem e alegria.
  
É no Espírito que Cristo habita realmente em nós, desde o nosso batismo, e faz crescer sua presença em nós em cada eucaristia, quando comungamos o corpo e o sangue daquele Senhor, que é pleno do Espírito. Só no Espírito podemos dizer que Cristo permanece em nós e nós permanecemos nele; só no Espírito podemos dizer que já não somos nós que vivemos, mas Cristo vive em nós, com seus sentimentos, suas atitudes e sua entrega ao Pai. Por isso, somente no Santo Espírito nossa vida pode ser vida em Cristo, vida de santidade.

Mas, o Espírito, além de agir em cada cristão, age na Comunidade como um todo, edificando a Igreja, fazendo-a sempre corpo de Cristo. Antes de tudo, ele vivifica a Igreja com a vida do Ressuscitado, incorporando sempre nela novos membros, fazendo-a crescer mais na plenitude de Cristo. Depois, ele suscita incontáveis ministérios, carismas e dons. É o Espírito que mantém esta variedade em harmonia e unidade, para que tudo e todos contribuam para a edificação do corpo de Cristo, que é a Igreja.

Pentecostes não pode ficar restrito à Liturgia, mas deve se prolongar no dia a dia através da vida no Espírito. É preciso deixar-se conduzir pelo Espírito Santo para discernir a vontade de Deus, produzir os frutos que ele espera de nós e assumir a missão de evangelizar, com ânimo renovado.

Necessitamos sair ao encontro de todos, especialmente dos que mais sofrem, para compartilhar a alegria do Evangelho. Cada um, cada grupo, cada movimento, cada pastoral, cada serviço, cada comunidade, na harmonia da Igreja, se dirija ao Pai com Jesus pedindo a renovação da efusão do Espírito Santo. Também, hoje, como no dia do seu nascimento, a Igreja invoca juntamente com Maria: Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor”.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Artigo: Discípulos do Ressuscitado

            A comunidade cristã vive o tempo pascal, litúrgica e pastoralmente. Sob muitos aspectos, os ensinamentos do Senhor ressuscitado falaram muito à mente e ao coração dos Apóstolos e dos primeiros discípulos e discípulas. Para estes, o tempo vivido com Jesus, em sua peregrinação missionária na Palestina, foi muito enriquecedor.Todavia, as lições de vida e missão não foram suficientemente assimiladas, devido às limitações de cada um deles. Apesar disso, em razão de sua manifesta confiança no ser humano, Jesus não descartou nenhum de seus discípulos. Ao contrário, confia-lhes a missão de anunciar o Evangelho. (cf. Mt 28, 19-20) No tempo pascal, percebe-se isso, de forma muito visível, na liturgia da Palavra, proclamada na celebração eucarística. No capítulo final davida e missão, os Apóstolos manifestaramsua fraqueza, duranteo julgamento e a Paixão de Jesus,revelaram medo, após a sua morte, porém assumiram o anúncioda Boa Nova, de forma corajosa, a partir de Pentecostes, como escreve São Lucas, nos Atos dos Apóstolos. Os discípulos da era apostólica e da Igreja primitiva deixaram exemplos edificantes de fidelidade à missão, como confirmam os inúmeros casos de martírio. Quando se contempla a Igreja na sua catolicidade, isto é, a “Igreja que se faz presente pelo mundo inteiro” (Oração Eucarística II) ou a porção presente em cada Igreja Particular (Diocese), com sua fisionomia própria, identificam-se os “altos e baixos” da prática dos discípulos e discípulas do Senhor, no cumprimento da missão de anunciar o Evangelho. Isso acontece porque a Igreja é constituída por um “povo santo e pecador” (Oração Eucarística V). “Sendo Cristo seu fundamento primordial, a Igreja é santa, sem mancha e sem rugas, esplendente de beleza. A Igreja é também humana enquanto constituída de membros que somos nós, criaturas humanas, frágeis, limitadas, pecadoras, sujeitas a tantas ambiguidades, mas mesmo assim partícipes, ainda que imerecidamente, de sua santidade e beleza.”

            Ser discípulo/a de Jesus ressuscitado é um dom que engrandece e responsabiliza. O discipulado engradece porque, em qualquer contexto histórico e geográfico, o cristão recebeu a dignidade de ser a revelação do próprio Jesus, com seu amor, sua verdade, misericórdia, bondade, justiça. O discipulado sempre responsabiliza porque, no “aqui e agora” da vida e da história, o cristão, por suas palavras e suasações, deve ser a transparência de Cristo.Em razão de sua condição de discípulo/a e testemunha de Jesus ressuscitado, tem uma carga imensa de responsabilidadeporque, a seu respeito, deve dizer-se o que dissePedro: “E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos Judeus e em Jerusalém.” (At 10,39) Ademais, é de se esperar que se diga de cada cristão/ão que escreveu Lucassobre Jesus: “Ele andou por toda a parte, fazendo o bem”. (At 10,38)

            A cada ano, a celebração da Páscoa representa um momento de rejuvenescimento da Igreja, uma vez que a celebração do mistério de Cristo traz para os fiéis a força da graça, especialmente com a vitalidade sacramental do batismo, da crisma, da eucaristia, da penitência. Pastoralmente, os fiéisdevem traduzir o amor de Cristo em serviço caritativo ao próximo, em suas necessidades materiais, espirituais, psicológicas e morais.

                                               Dom Genival Saraiva -  Bispo Emérito de Palmares - PE

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Artigo: Deus ama a todos



            Deus ama a todos, não faz distinção entre as pessoas (At 10,34). Deus é amor! (1Jo 4,8). Num tempo em que há diferentes modos de se compreender o amor, é importante recordar em que consiste o amor de Deus: “não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou-nos o seu Filho” (1Jo 4,10). Deste modo, é ressaltada a gratuidade do amor, isto é, amar antes de ser amado, amar sem cobrar recompensa, tomar a iniciativa de amar, amar os que não nos amam ou que não retribuem o amor recebido. Deus ama a todos, de graça; seu amor é graça!

            Assim, se Deus nos amou deste modo, também nós devemos amar a Deus e ao próximo. Nós somos chamados a amar, segundo o mandamento que Jesus nos deixou: “amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 15,12). Ele nos amou até entregar toda a sua vida por nós.

Na última ceia, Jesus nos deixa a eucaristia e realiza o gesto do lava-pés. A doação da própria vida, fazendo-se servidor dos irmãos, é sinal do amor de Cristo e do amor na vida de cada cristão. Jesus nos amou doando a sua vida por nós “para que tenhamos vida por meio dele” (1Jo 4, 9). Há muita gente, graças a Deus, que se doa cotidianamente para que os outros tenham a vida. Dentre tantos, podemos destacar os que se doam generosamente às crianças, aos idosos, ao serviço dos enfermos, dos pobres e dos que mais sofrem, assim como, os que entregam a própria vida como missionários, anunciadores do Evangelho, para que todos tenham vida e a tenham em abundância.

Jesus nos escolheu para produzirmos frutos bons, imitando-o no seu amor. "Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor" (Jo 15,9). O Senhor nos fala de que amor? De um sentimento, de um afeto, de uma simpatia, de uma amizade? Não! O amor de que fala Jesus é o amor-caridade, o amor de Deus, o amor que é fruto da presença do Espírito de amor, o Espírito Santo.

É esse Espírito de amor que, habitando em nós, faz-nos permanecer em Jesus e ter força no cumprimento da sua vontade. O amor de Deus em Cristo Jesus manifesta-se a todos os seres humanos. Sobre todos Deus derrama o seu Espírito. Ele nos amou primeiro e continua derramando o seu Espírito sobre nós para fazermos de nossa vida uma resposta de amor ao amor de Deus. São inúmeros os sinais do amor de Deus entre nós.

O amor de mãe é sinal do amor de Deus. Neste domingo das mães, rezemos pelas mamães, oferecendo-lhes como presentes: as orações, o amor, o respeito, a gratidão, o carinho e a paz na família. Confiamos as nossas mães à proteção de Maria, a Mãe de Jesus e Mãe de todas as mães! Parabéns, mamães! Feliz Dia das Mães!


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira - PB


domingo, 12 de abril de 2015

Dom Helder e a CNBB


Nas proximidades de mais uma assembleia da CNBB, foi divulgada nestes dias uma notícia que promete muitos desdobramentos. Trata-se do processo de beatificação de Dom Helder. Ele abre caminho para invocar Dom Helder como santo brasileiro, a quem poderemos confiar tantas causas importantes de nosso país, pelas quais ele lutou em sua vida.
Antes que ninguém, a CNBB poderá se habilitar a ter Dom Helder como seu padroeiro. Sua figura já se encontra no salão de reuniões na sede da CNBB em Brasília.  Ninguém mais que Dom Helder soube encarnar as causas da CNBB.
A história se encarrega de comprovar a estreita ligação que existiu entre Dom Helder e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Foi ele que teve a iniciativa, e levou em frente a ideia de constituir uma entidade que congregasse, oficialmente, os Bispos da Igreja Católica no Brasil.
Era no começo dos anos 50. Dom Helder tinha a viva experiência de como era importante a articulação dos leigos do Brasil, através da Ação Católica. A partir desta constatação, projetou sua hipótese, que ele passou a sonhar com crescente determinação. Se os leigos podiam se articular, muito mais os bispos poderiam multiplicar sua atuação, se contassem com uma entidade que lhes desse respaldo jurídico e permitisse uma estratégia de ação.
Quando ainda não era Bispo, Dom Helder foi a Roma, onde esperava confiar sua utopia para alguém que ajudasse a fazê-la acontecer.
Providencialmente, encontrou a pessoa certa. Conheceu o Monsenhor Montini, o futuro Papa Paulo VI. Ambos foram falar com Pio XII, e de imediato perceberam o incentivo que o Papa lhes dava.
Daí nasceu a decisão de se criar a CNBB. Com desenvoltura e lucidez, elaboraram o estatuto provisório, que foi dando forma à nova entidade, que passou cedo a ser reconhecida pelo povo, através de sua sigla, que logo foi adquirindo notoriedade.
De tal modo que, já em 1952, dez anos antes do início do Concílio, os Bispos do Brasil já tinham sua entidade representativa, que permitia agirem de modo mais eficaz e articulado. 
A CNBB mostrou sua validade, especialmente durante o Concílio, quando sua experiência de articulação ajudou muito o desenrolar do próprio Concílio. Ela guardará sempre a marca de Dom Helder. Foi ele que a imaginou, e foi ele que a conduziu durante muitos anos como Secretário Geral.
Agora, a abertura do processo de beatificação vem ratificar a importância da CNBB, que vai aprimorando sua atuação, assimilando a experiência dos anos.
Vincular Dom Helder com a CNBB é cultivar nossa consciência histórica, sempre tão importante para discernir os novos apelos que a realidade nos apresenta.
Junto com Dom Helder poderíamos colocar uma plêiade de outros Bispos, beneméritos por sua atuação e seu testemunho de vida. Um deles devemos citar quando falamos de Dom Helder. É Dom Luciano. Ele também já está em vias de ser beatificado, sendo sua causa assumida pela Arquidiocese de Mariana. Entre os dois, a Providência colocou caprichosamente suas pegadas. Tanto Dom Helder, como Dom Luciano, morreram no dia 27 de agosto. Dom Helder em 1999. Dom Luciano em 2006.
Para concluir hoje esta breve evocação de Dom Helder, convém lembrar outro grande bispo latino americano, que finalmente será beatificado no próximo mês de maio. É Dom Oscar Romero, bispo de El Salvador. Ele foi morto quando celebrava a eucaristia, no dia 24 de março de 1980.
Bem vindas as beatificações que nos permitem recuperar a memória de nossa caminhada.  É uma honra e um compromisso, incluir em nossa história a lembrança de pessoas tão marcadas pela graça de Deus.          
Dom Romero, Dom Helder, Dom Luciano, e tantos outros, rogai por nós!

Dom Luiz Demétrio Valentini
Bispo de Jales (SP)

sábado, 11 de abril de 2015

Artigo: Domingo da Divina Misericórdia



No segundo domingo da Páscoa, a Igreja Católica celebra a Festa da Divina Misericórdia, instituída por São João Paulo II, em 30 de abril de 2000, por ocasião da canonização da Irmã Maria Faustina Kowaslka, religiosa polonesa, nascida em 1905 e falecida em 1938.
 Neste clima de louvor pascal, rezamos: “Dai graças ao Senhor porque ele é bom! Eterna é a sua misericórdia” (Sl 117).
            Neste Tempo Pascal, nós somos convidados a confiar na misericórdia divina, a acolher a paz e o perdão que Jesus nos oferece. Ao mesmo tempo, somos chamados a testemunhar a misericórdia em nossa vida cristã. Para viver em comunidade, assim como, para viver em família, necessitamos muito da misericórdia divina e também da misericórdia entre nós, o que inclui o perdão ao próximo e uma atenção especial aos que mais sofrem. Contudo, a acolhida da misericórdia divina pressupõe a fé. Quem crê em Cristo Ressuscitado, confia no seu amor misericordioso e o leva aos seus irmãos.
            O “Culto e devoção à divina misericórdia, estimulado por uma revelação particular, feita a Santa Faustina, teve uma repercussão muito grande em todo o mundo católico, o que deu apoio a que o Magistério da Igreja se pronunciasse a favor” (Pe. Dr. Achylle A. Rubin, religioso palotino).
Os traços das revelações à Santa Faustina Kowaslka constam no seu próprio Diário. São eles: o quadro de Jesus Misericordioso, sua Festa, o terço e a hora da Misericórdia bem como o seu culto a ser difundido.
         O quadro com a pintura de Jesus misericordioso aparece nos escritos de Santa Faustina do seguinte modo: “À noite, quando me encontrava na minha cela, vi Nosso Senhor vestido de branco. Uma das mãos erguidas para a bênção, e a outra tocava-Lhe a túnica, sobre o peito. Da túnica entreaberta sobre o peito saiam dois grandes raios, um vermelho e o outro pálido. (...) Logo depois, Jesus me disse: Pinta uma imagem de acordo com o modelo que estás vendo com a inscrição: Jesus, eu confio em Vós” (Diário 47). Quero que essa Imagem (...) seja benzida solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa, e esse domingo deve ser a Festa da Misericórdia” (Diário 49).
Não basta, contudo, amar a Deus sem amar ao próximo, como ensina São João (cf. 1Jo 4,40), daí Santa Faustina recordar da inspiração: “Deves mostrar-te misericordiosa com os outros, sempre e em qualquer lugar. Tu não podes te omitir, desculpar-te ou justificar-te” (Diário 742).
Nesta Festa da Misericórdia, o Papa Francisco anunciará o Ano Santo da Misericórdia, que terá início na Solenidade da Imaculada Conceição, dia 8 de dezembro, e será concluído no dia 20 de novembro de 2016, na Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo.
Pedimos as orações de todos pela 53ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, que será realizada em Aparecida – SP, nos dias 15 a 24 de abril, tendo como tema central as “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil”. Que neste segundo Domingo da Páscoa, o da Divina Misericórdia, Deus abençoe a todos!

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)




domingo, 29 de março de 2015

Artigo: Vivendo a Semana Santa



            A Semana Santa celebra o mistério central de nossa fé: a Ressurreição de Jesus. Não se trata apenas de recordar fatos passados, mas de um memorial que deve ser atualizado; o único Mistério que não pode ser fragmentado. Celebram-se de modo especial a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

            O Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor abre a grande semana santa com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Os evangelhos relatam que as pessoas estenderam mantos pelo chão e O aclamaram com ramos de árvores. Por isso, hoje os fiéis carregam ramos, recordando o acontecimento. Os ramos abençoados são levados para casa num sinal de compromisso com aquele que aclamamos, Jesus, o único mestre e Senhor. Esse é o domingo da 30ª Jornada Mundial da Juventude, com o tema: «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 8).  “Queridos jovens, como vedes, esta Bem-aventurança está intimamente relacionada com a vossa vida e é uma garantia da vossa felicidade. Por isso, repito-vos mais uma vez: tende a coragem de ser felizes!”, mensagem do Papa Francisco. Os jovens se preparam para  a próxima edição internacional da Jornada Mundial da Juventude, na Polônia, em julho de 2016.

Na segunda, terça e quarta-feira da Semana Santa, contemplamos o Servo sofredor, Jesus, na sua missão de Messias Redentor.

      A comunidade diocesana reúne-se na quinta-feira santa de manhã, às 8h30, na Catedral: o Bispo, os Sacerdotes e os fiéis para celebrar a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio ministerial. É a chamada Missa do Crisma, na qual, todos os sacerdotes renovam seus compromissos sacerdotais, bênção dos santos óleos dos catecúmenos e dos enfermos e consagração  do óleo do crisma. No final, os padres levam os santos óleos às suas paróquias, para a utilização na celebração dos sacramentos durante todo o ano.

Com a Missa da Ceia do Senhor, ao anoitecer, dá-se início ao Tríduo Pascal, que se conclui com a Vigília Pascal, no Sábado Santo. Os três dias formam uma só celebração, que resume todo o mistério da Páscoa. Por isso, nas celebrações da quinta-feira e da sexta-feira à tarde não se dá a bênção final; ela só será dada, solenemente, no final da Vigília Pascal. Nessa Missa vespertina realiza-se o Lava-pés: o gesto de Cristo, que lavou os pés dos Apóstolos, faz-nos descobrir o serviço fraterno que nos une ao mistério de Cristo.
            Na Sexta-feira Santa a Igreja não celebra a missa. Ela permanece em jejum e faz abstinência de carne, contemplando o mistério do grande amor de Deus pelos homens. À tarde, acontece a Celebração da Paixão e Morte de Jesus, com a proclamação da Palavra, preces, a adoração da cruz e a distribuição da Sagrada Comunhão. Sabemos, portanto, que a Semana Santa não se encerra com a sexta-feira santa, mas no dia seguinte, quando se celebra a vitória de Jesus. Só há sentido em celebrar a cruz quando se vive a certeza da ressurreição.

O Sábado Santo é dia de silêncio e de oração. A Igreja permanece junto ao sepulcro, meditando no mistério da morte do Senhor e na expectativa de sua ressurreição. Durante o dia não há missa nem celebração de sacramentos.

À noite, a Igreja celebra a solene Vigília Pascal, a mãe de todas as celebrações. A Ressurreição de Jesus dentre os mortos ilumina o mundo com a sua luz. Então o tempo se abre para a Páscoa!

 Sigamos Jesus nesta Semana Santa e por toda a nossa vida.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

domingo, 22 de março de 2015

Artigo: Ver Jesus


            A quaresma está passando e a Semana Santa está chegando. Vivencie bem estes últimos dias da quaresma. Não deixe passar em vão este tempo especial da graça de Deus. Veja o caminho para aquele que deseja ver Jesus. É o caminho da cruz, da obediência a Deus, da semente lançada à terra, que não fica só, e, morrendo, gera vida e produz muito fruto. É chegada a hora de Jesus. A “hora” da glorificação do Pai pela fidelidade do Filho até o fim, “elevado” na cruz. Jesus se lança ao Plano do Pai e realiza sua vontade.
            É necessário que Jesus, grão de trigo que se faz Eucaristia, morra e dê fruto – e este fruto é toda a humanidade, aqueles que nele acreditarão e nele terão a vida eterna: "Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz fruto". Jesus entregará ao Pai a sua vida para frutificar em salvação para nós, para que possamos vê-lo, contemplá-lo e experimentá-lo como nossa Luz e nossa Vida.
            Quem quiser ver Jesus e estar com Ele onde Ele está, isto é, no Pai, terá que acompanhá-lo. Aceitar ser semente lançada à terra. Os gregos pediram: “Queremos ver Jesus”! Este pedido é nosso também. É nosso anseio reconhecer a presença de Jesus Cristo e segui-lo (DAp 244). O segredo nosso é seguir Cristo. Acompanhá-Lo de perto, viver com Ele, identificar-se com Ele e não colocar obstáculos à graça, não tardar em afirmar que nos revestimos de Nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 13,14).
            Aqueles gregos representam inúmeras pessoas que também hoje querem ver Jesus, necessitam dele, mas não conseguem chegar até ele. Os discípulos de hoje devem ajudar as pessoas a encontrar Jesus. Para tanto, é preciso ter um coração missionário, ser uma comunidade missionária; ir ao encontro dos que estão fora da comunidade ou dos que mais sofrem para compartilhar com eles a “alegria do Evangelho”. Entretanto, não basta “ver” Jesus. É preciso acolher a sua palavra que nos convida a ser também o “grão de trigo” que se consome em favor dos irmãos, para produzir muitos frutos. Quando nos tornamos o “grão de trigo”, glorificamos a Deus na vida.
            Jesus Cristo lembra a todos: “quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim” (Jo 12,32), se vós Me puserdes no cume de todas as atividades da terra, cumprindo o dever de cada momento, sendo Meu testemunho naquilo que parece grande e naquilo que parece pequeno, tudo atrairei a Mim. Cada cristão seguindo Cristo há de ser uma bandeira hasteada, uma luz colocada no candeeiro: bem unido pela oração e mortificação à Cruz, em cada momento da vida, há de manifestar aos homens o amor salvador de Deus Pai.
Os gregos quiseram ver Jesus! Encontraram Filipe e André que os conduziram ao Mestre. Tendo-O encontrado e acreditado n´Ele, Filipe e André guiam outras pessoas para verem Jesus. É a vocação de todos os que queiram seguir a Cristo. Tendo visto Jesus, tendo feito a experiência de Deus em sua vida, tendo se transformado em semente lançada à terra, os cristãos são chamados a conduzirem outras pessoas a Jesus para O verem, para O seguirem, para viverem de Sua vida. Vendo Jesus nos cristãos, essas pessoas também crerão e terão vida em abundância.
            No próximo domingo, estaremos iniciando a Semana Santa, com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Participe das principais celebrações da Semana Santa. Lembre-se de que estaremos realizando, em todo o Brasil, no Domingo de Ramos, a coleta da Campanha da Fraternidade: “Eu vim para servir”.

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)


domingo, 15 de março de 2015

Artigo: Confessar-se


A Quaresma é tempo de confessar-se. A confissão é uma maravilhosa oportunidade para curar o coração, a alma e o mal cometido. O sacramento da confissão, também chamado de Penitência ou Reconciliação, precisa ser celebrado assiduamente. Somos todos pecadores e, se não reconhecemos os nossos pecados, não poderemos alcançar o perdão de Deus.
O nosso pedido de perdão não é um simples pedido de desculpas. É estar consciente do pecado praticado. Pois, Deus perdoa sempre, mas requer também nosso perdão. Não perdoar é fechar a porta do coração ao perdão de Deus. Essa porta deve estar sempre aberta para o perdão de Deus entrar e a fim de podermos perdoar os outros.
O pecado é uma ofensa a Deus; somente Ele pode perdoá-lo! Jesus, que é Deus, tem o poder de perdoar os pecados: “O Filho do homem tem o poder de perdoar os pecados sobre a terra” (Mc 2,10). Este poder, ele concedeu à Igreja, para que o exerça em seu nome: “Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação” (2Cor 5,18);  “Em verdade vos digo: tudo quanto ligardes na terra será ligado no céu e tudo quanto desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18,18).
Estes textos bíblicos são claros: o Cristo, único que pode perdoar os pecados, deu à sua Igreja o poder de perdoar os pecados em Seu nome. É importante compreender que o padre não é dono do sacramento da reconciliação, é servidor, ministro: ele somente pode perdoar em nome de Cristo e da Igreja. Então, não pode extrapolar o poder à autoridade que a Igreja lhe concedeu. Os confessores e penitentes estão sujeitos à lei do sigilo sacramental.
O pecado provoca sempre uma ferida não só em nós mesmos, mas também em todo o Corpo de Cristo, que é a Igreja. Assim, o perdão nos restitui a amizade de Deus, a sua graça em nós, dando-nos a verdadeira paz interior.
O Papa Francisco nos ensina, com simplicidade e clareza: “Alguém poderá dizer: ‘Eu me confesso diretamente a Deus’. Sim, tu podes dizer a Deus: ‘Perdoa-me’, e dizer a ele teus pecados. Mas nossos pecados são também contra os nossos irmãos, contra a Igreja, e por isso é necessário pedir o perdão à Igreja e aos irmãos, na pessoa do sacerdote. ‘Mas, padre, tenho vergonha! Também a vergonha é boa, é ‘saudável’ ter um pouco de vergonha.” (Audiência na Praça de São Pedro, 19/02/2014). Ele tem convocado a Igreja no mundo inteiro a dedicar 24 horas ininterruptas ao Senhor nos dias (sexta-feira e sábado) que antecedem o Domingo da Alegria, o IV Domingo da Quaresma.  Então, todas as Dioceses, paróquias e comunidades de fiéis são chamadas para a oração e confissão nas  "24 horas para o Senhor". Ele mesmo tem dado sinais da importância da Confissão para nossas vidas.
Na Diocese de Guarabira, na V Semana da Quaresma, de 23 a 27 de março de 2015, acontecem os mutirões de confissões por Regiões Pastorais. Os sacerdotes se reúnem, vez por vez, em cada paróquia, incluindo aí todas as suas comunidades, para que todos os sacerdotes dessa área atendam as confissões ao maior número de fiéis. Vamos nos dedicar, com grande empenho, no atendimento das confissões. Aproveitemos dos “mutirões de confissão” e confessemos os nossos pecados sem julgar ninguém. Lembre-se: “Quem sou eu para julgar”? Que o Senhor nos dê a graça de ver nossos pecados, reconhecê-los humildemente e confessá-los sinceramente, para celebrarmos verdadeiramente a Páscoa que se aproxima.


Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)

sábado, 14 de março de 2015

Mensagem do Presidente da CNBB NE 2 e Arcebispo de Olinda e Recife aos presbíteros e diáconos, religiosos e religiosas e a todo o povo de Deus por ocasião da Quaresma de 2015

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Mensagem do Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recifeaos presbíteros e diáconos, religiosos e religiosase a todo o povo de Deus por ocasião da Quaresma de 2015 
“É agora o momento favorável. É agora o dia da salvação” (2Cor 6,2b).
Queridos irmãos e irmãs,
Com a imposição das cinzas, iniciamos um novo Ciclo Pascal, em nossa vida cristã, assim como na vida da Igreja. Com as celebrações da Quaresma, da Páscoa e de Pentecostes, retomamos o caminho pascal de Jesus e nos comprometemos em viver o Amor Maior de quem dá a vida pelo bem da humanidade. Fazemos isso, cada um/a de nós, mergulhando mais e mais na alegria de sermos Igreja que escuta a Palavra, reparte o Pão e vive a solidariedade. Nesse tempo oportuno para a conversão, somos chamados a rever nossa vida batismal, consequentemente, renovando nosso compromisso missionário de discípulos/as, sobretudo aqueles que espontaneamente decidiram dar um passo mais exigente, consagrando suas vidas por inteiro ao serviço do Reino. Que o exemplo de Jesus, ao se retirar quarenta dias no deserto, nos motive a sermos decididos e perseverantes diante do projeto do Pai para cada um/a de nós. A epístola aos Hebreus nos ensina: “(…) pois vos é necessária a perseverança para fazerdes a vontade de Deus e alcançardes os bens prometidos. Ainda um pouco de tempo – sem dúvida, bem pouco – e o que há de vir virá e não tardará. Meu justo viverá da fé. Porém, se ele desfalecer, meu coração já não se agradará dele. Não somos, absolutamente, de perder o ânimo para nossa ruína; somos de manter a fé para nossa salvação!” (Hb 10, 36-39). Nesse sentido, nosso arcebispo emérito, Dom Hélder Câmara, nos ensina: “É graça divina começar bem. Graça maior persistir na caminhada certa. Mas graça das graças é não desistir nunca”. As pedras no caminho, comuns a todo e quaisquer projetos de vida, sempre servem como experiência e provocação. Em seguida, vem o amadurecimento. A força da oração, tão recomendada nesse início da Quaresma, é o grande remédio que renova e nos firma no caminho.
Para nos ajudar, nesse caminho, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil nos propõe a Campanha da Fraternidade. Neste ano de 2015, com o tema: “Fraternidade: Igreja e Sociedade”. A intenção é reavivar nossa memória e mostrar a atualidade dos documentos do Concílio Vaticano II que, há cinco décadas, vêm ecoando por todos os recantos do mundo. Sobretudo, o último e mais importante deles, a Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, a Gaudium et Spes. Há 50 anos, os bispos de todo o mundo, reunidos no Concílio, nos convocaram a assumir como nossas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias da humanidade de hoje, sobretudo dos pobres e de todas as pessoas que sofrem, pois essas são também as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos e discípulas de Jesus Cristo” (GS, n. 1). Com esse texto profético, o Concílio abriu a Igreja para a realidade do mundo, para os sofrimentos e anseios da humanidade. Em nome do Evangelho, nossos pastores convocaram os católicos do mundo inteiro a se unirem a todas as pessoas de boa vontade, em um compromisso pessoal e social, para que o Reino de Deus e seu projeto para a humanidade aconteça aqui, “na terra, como no céu”. Isso é tão atual que o texto base apresenta como objetivo geral da Campanha: “Aprofundar à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre Igreja e sociedade, propostos pelo Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus”.
Esse ano de 2015 será muito especial para nós. Além de estarmos vivendo o Ano da Vida Religiosa e Consagrada, convocado pelo Papa Francisco, e o Ano da Paz, convocado pela CNBB, em sua 52ª Assembleia Geral, em Aparecida, estamos recebendo o nosso Bispo Auxiliar, Dom Antônio Tourinho Neto, que chega, com o coração aberto, para caminhar conosco e ajudar na evangelização e construção de uma Igreja cada vez mais sensível às questões que afligem o nosso povo, assim como vivenciar com ele as alegrias e esperanças.
Como pastor desta Arquidiocese de Olinda e Recife, em comunhão com o Papa Francisco, que costuma se apresentar como bispo de Roma, e com os bispos do Brasil, venho convidar todo o nosso clero (bispos, padres e diáconos), religiosos/as, leigos/as, para, na celebração desta Páscoa, retomarmos, com maior vigor, o espírito que animou o Concílio Vaticano II. Para isso, muito nos ajudarão a releitura do texto base da Campanha da Fraternidade, dos documentos conciliares, sobretudo, da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje, e da exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, que atualiza a Gaudium et Spes. O estudo desses documentos, especialmente quando feito em pequenos grupos, estimulará a necessária“conversão pastoral” de que fala o Documento de Aparecida. Esta conversão do nosso ser mais profundo mudará nosso jeito de viver a fé, de celebrar e de fazer pastoral. Poderemos, assim, contribuir realmente para que a “Alegria do Evangelho”, anunciada com exemplos e palavras pelo Papa Francisco, chegue a todos os recantos, onde pessoas e grupos têm fome e sede de justiça e buscam uma sociedade mais justa e fraterna. O Papa nos pede para nos colocar como uma Igreja pobre e a serviço dos empobrecidos. Ele nos propõe reavivar um diálogo aberto e humilde com todas as pessoas, próximas e distantes, tendo em vista a realização do projeto divino no mundo, o Reino da fraternidade, da justiça e da paz. Esse é o esforço missionário que deve nos mobilizar e entusiasmar como caminho espiritual de conversão. Deve ser realizado não só durante a Quaresma, mas de modo permanente e cada vez mais a intensamente.
Enfim, todo esse processo quaresmal deverá resultar em ações concretas. Devemos encontrar, criativamente, em cada lugar, os jeitos melhores de participar em ações solidárias, como é a campanha por uma urgente e profunda reforma do nosso sistema político. Como diz a CNBB, no texto base da CF: “A luta pela reforma política é a maneira de os cristãos se colocarem contra o difuso sentimento de decepção e descrença na política institucional que paira na sociedade” (n. 88). A CNBB insiste “na necessidade de ampliação dos sujeitos políticos, com vez e voz, no processo de construção da sociedade e do Estado”. Seria oportuno que, nesse ano, pudéssemos como Arquidiocese, aprofundar esses assuntos e, como resposta à Campanha da Fraternidade, nos unir em torno de propostas bem concretas, a serem desenvolvidas em cada lugar, em busca da superação de problemas e da construção de uma vida melhor para todos e todas.
Neste sexto ano do meu pastoreio, nessa Igreja onde nasci, cresci e que tanto amo, gostaria de render graças a Deus pelos irmãos e irmãs que têm colaborado, direta ou indiretamente, com minha missão, sobretudo pela chegada do nosso bispo auxiliar, conforme falamos acima; pela colaboração de Dom Genival Saraiva de França, nosso Vigário Geral; os presbíteros e diáconos e, dentre eles, de maneira especial, os outros vigários gerais e os vigários episcopais; a coordenação de pastoral; os que, além dos seus encargos, não medem esforços para colaborar, no âmbito arquidiocesano e vicarial; finalmente, a grande legião de leigos/as que nos edificam pela disponibilidade e pelo testemunho. Diante de todos, renovo meu compromisso de caminhar na unidade e fraternidade, segundo os ensinamentos do Evangelho. Ao iniciarmos juntos mais essa caminhada rumo à Páscoa, peço, humildemente, perdão pelas minhas faltas e os abençoo em Cristo Jesus.
Desejo a todos/as uma santa e renovadora celebração da Páscoa da Ressurreição, e um novo Pentecostes.

Dom Antônio Fernando Saburido,OSB
Arcebispo de Olinda e Recife

segunda-feira, 9 de março de 2015

Artigo: A restauração do ser humano


A Quaresma nos prepara para celebrar bem a páscoa. Hoje somos chamados a viver a restauração da nossa existência a partir do símbolo do templo (cf. Jo 2,13-25). O Templo é o lugar do encontro de Deus com seu povo. Não pode ser transformado em casa de comércio, de idolatria. É idolatria a ganância, a impiedade, reduzir a religião a um negócio lucrativo, pensar que se pode manipular Deus com um rito ou com um exemplar da Bíblia! O Senhor previne: "Eu sou o Senhor vosso Deus que não aceita suborno" (Dt 10,17).  Por isso Jesus age radicalmente contra aqueles que não zelam o templo. Sua ira nos previne no sentido de que não podemos brincar com Deus, não podemos fazer pouco dele! Correremos o risco de perdê-lo, de sermos rejeitados do seu coração!

Quando a infidelidade é grande, quando o nosso coração habituou-se no mal, corremos o risco de sermos tomados de tal cegueira, de tal dureza de coração, que já não vemos nem com a Luz! Jesus é a luz que brilha claramente. Sua atitude dura, recorda o amor de Deus que foi traído, e muitos ainda pedem por sinais. Jesus dá um sinal, decisivo: "Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei". Jesus fala do templo do seu corpo. O corpo ressuscitado de Jesus é o novo templo.

Jesus mostra que a verdadeira habitação entre os seres humanos é Ele mesmo, o seu corpo. Assim quem desrespeita o templo está desrespeitando a sua pessoa, o próprio Deus e toda a pessoa humana, chamada a ser templo de Deus.

O templo de Deus entre os homens será destruído, mas será levantado em três dias. Jesus ressuscitado é o templo indestrutível. Ele é o lugar onde um novo povo poderá para sempre encontrar Deus. Eis o sinal, surpreendente: à infidelidade do seu povo, Deus responde entregando o seu Filho e fazendo dele o lugar da salvação e da graça, da vida e da vitória da humanidade!

Jesus restaura, assim, o verdadeiro sentido do templo. Os templos de hoje também devem ser espaços privilegiados de encontro pessoal e comunitário com Deus, por meio da oração e das celebrações litúrgicas. Ninguém pode deturpar o sentido do templo, por interesses gananciosos e próprios.

Olhemos o Crucificado, cujo corpo esmagado é o lugar do perdão, da misericórdia e do encontro com Deus. Sabemos: "Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3,16).

A restauração do ser humano pecador passa pela renúncia de si mesmo, pela mortificação, pela conversão. Somos chamados a viver a restauração da nossa existência. A Palavra de Deus se torna hoje ocasião de restauração quaresmal. Ela nos impele com uma força incomum a nos lavar, a nos purificar, a tirar o mal que há em nossas ações.

Mudemos de vida! Que nossa fé não seja fingida, superficial, descomprometida; que nossa religião não seja simplesmente uma prática fria e sem desejo de real conversão ao Senhor nosso! Convertamo-nos! Jesus nos conduz às alegrias da Páscoa!

Dom Francisco de Assis Dantas de Lucena – Bispo de Guarabira(PB)


terça-feira, 3 de março de 2015

Artigo: QUARESMA DE 2015


A maioria dos católicos praticantes sabe que a quaresma é o tempo de preparação para a Páscoa do Senhor.

O Diretório da Liturgia da CNBB nos indica que este tempo começa na 4ª feira de cinzas e termina na 5ª feira Santa, antes de celebrarmos a Missa da Ceia do Senhor (a missa do Lava-pés). Com esta missa damos início ao Tríduo Pascal.

“Com que coisa podemos comparar a Quaresma? Que parábola podemos usar? (cf. Mc 4,30)”. É como aquela situação em que uma pessoa vai celebrar uma grande festa e que precisa arrumar a casa para que ela possa estar limpa, bonita para o grande dia. É como o outono, quando a árvore perde as folhas velhas para se revestir com as novas. É como a pessoa que toma banho, põe a roupa limpa e se perfuma para receber o(a) amado(a). É como a mulher que durante nove meses faz o enxoval para a criança que vai nascer. É como o atleta que treina para correr na maratona. É como a ave que deixa cair as penas velhas para que nasçam as plumas novas.

Todo momento importante na nossa vida exige um período de preparação, assim é a catequese para a recepção do sacramento, o namoro para o casamento, o curso para a formatura.

Não poderia ser diferente com a festa da páscoa cristã, memória da Ressurreição do Senhor. Pra festa da vitória da vida, nos preparamos com um tempo de conversão, mudando de direção, dirigindo o nosso olhar para Jesus, mudando o coração. “Hoje não fecheis o vosso coração..., mas ouvi a voz do Senhor” (Sl 94). Tempo de reconhecer os sinais de morte, os sinais do homem velho que existem em nós para re-nascermos com Aquele que faz nova todas as coisas. (cf. 2 Cor 5,17).

A tradição cristã nos convida a viver este tempo a partir das três grandes práticas penitenciais: jejum, oração e esmola.

A Igreja nos convida ao jejum (deixar de comer por um período) ou à abstinência (abrir mão de alguma coisa muito importante ou de algo que gostamos de fazer ou de comer). Numa sociedade como a nossa, marcada pelo prazer, estes gestos são tidos como coisas ultrapassadas. Outras pessoas exageram nesta prática, como se o nosso Deus fosse um Deus sádico, que quanto mais sacrifício fizermos, quanto mais dor, mais sofrimento, melhor será. Esse gesto deveria ser entendido como um exercício quaresmal, um exercício de conversão. Da mesma forma que o atleta precisa treinar para chegar à vitória, o cristão se exercita para estar livre das coisas e se tornar livre para Deus. Abrir mão de algo essencial na vida como o alimento ou abrir mão de algo que gosto, deve significar: quero que Deus seja o mais importante na minha, por Ele sou capaz de abrir mão de tudo. Afinal de contas o pecado não é aquilo que nos impede de ser livres para Deus? Também o jejum e a abstinência têm um sentido de solidariedade com aqueles que são privados de tantas coisas básicas, sobretudo do alimento.

A oração é outro grande exercício espiritual. Deus está presente na nossa vida durante as 24 horas de cada dia, mas nem sempre estamos atentos à sua presença. A oração é o momento por excelência em que nos colocamos diante de Deus, para falarmos com Ele, para ouvi-lo, para curtirmos a sua presença. Sendo a quaresma um tempo de conversão, se torna um momento de reconhecermos aquilo que nos distancia de Deus e darmos passos em sua direção. Oração é querer caminhar para Deus, caminhar com Ele, Tê-lo como nosso caminho.  

A esmola é mais do que dar uma moeda a alguém que necessita. É reconhecermos que somos todos irmãos e que a sua dor deve também tocar o meu coração, que sua carência deve me provocar à solidariedade. Afinal de contas a páscoa que celebramos é a solidariedade de nosso Deus com a nossa fraqueza (a morte) e a partilha do seu dom (a eternidade). Quem abre o coração deve abrir também as mãos, caso contrário a chamada conversão não passaria de um discurso bonito, mas vazio.

Entrar neste tempo com o espírito de querer “rasgar o coração, e não as vestes” (Jl 2,13), “deixando-se reconciliar com Deus”, vivendo este momento como “tempo favorável, como dia de salvação” (2Cor 5,20; 6,2). Vivendo tudo com muita interioridade, permitindo que Deus transforme o nosso coração de pedra num coração de carne (Ez 36,26), semelhante ao coração de seu filho, que nos amou com um coração humano.

A Igreja do Brasil desde 1964 realiza a Campanha da Fraternidade durante o período da Quaresma. Qual o espírito da CF 2015? No próximo dia 8 de dezembro estaremos celebrando os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II.  Na véspera, no dia 7 de dezembro de 1965, a Igreja recebia uma pérola dada pelo Concílio: a Constituição Pastoral Gaudium et Spes – sobre a Igreja no mundo atual: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.” (cf. GS 1). Esta Constituição Pastoral norteou as relações da Igreja com a sociedade nos últimos 50 anos. Para celebrar o jubileu de ouro deste documento tão importante a CNBB escolheu como tema da Campanha da Fraternidade 2015: Fraternidade - Igreja e sociedade, com o lema: “Eu vim para servir” (Mc 10,45).

“O cartaz da CF 2015 retrata o Papa Francisco lavando os pés de um fiel na Quinta-feira Santa de 2014. A Igreja atualiza o gesto de Jesus Cristo ao lavar os pés de seus discípulos. O lava-pés é expressão de amor capaz de levar a pessoa a entregar sua vida pelo outro. É com este amor que todo ser humano é amado por Deus em Jesus Cristo. Ao entregar-se à morte na cruz e ressuscitar, como celebramos na Páscoa, Jesus leva em plenitude o Eu vim para servir (cf. Mc 10, 45).

A Igreja Católica, através de suas comunidades, participa das alegrias e tristezas do povo brasileiro. O Concílio Vaticano II veio iluminar a missão evangelizadora da Igreja. Evangelizar pelo testemunho, dialogando com as pessoas e sociedade. No diálogo, a Igreja (as comunidades) está a serviço de todas as pessoas. Ao servir, ela participa da construção de uma sociedade justa, fraterna, solidária e pacífica. No serviço, ela edifica o Reino de Deus”.

Vivamos o espírito que a Igreja nos propõe para a Quaresma e para a Campanha da Fraternidade de 2015! Vivamos este tempo como um tempo de graça, como um tempo de salvação! (cf. 2 Cor 2,6)

Dom Antonio Carlos Cruz, Msc
Bispo de Caicó-RN